Necromancia, as revelações de Maria Alice Vergueiro

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Foto Fábio Furtado

Estava tudo lá: uma melodia acolhedora para que de alguma maneira o futuro soasse doce como uma pá de cal.

Um espetáculo sem cortinas cerradas tem um encaixe misterioso para abrir a cena. Qual seria o tempo da passagem? Como seria? Quem perceberia a transição?

O velório simulado de Maria Alice Vergueiro diluiu o limite da atuação. Todos fomos atores a contar o compasso das horas que nos entregariam seu cadáver, mesmo que por um instante ou não.

O que os mais deslumbrados esqueceram é que naquele corpo aparentemente interditado existe uma justeza entre a atriz e seu papel. Falsamente disciplinada no sufocamento do Mal de Parkinson, já há muito tempo lida com o emparedamento paulatino, gotejante, quase eterno.

A mulher do futuro se mantém no fio do desejo

A tão anunciada simulação da despedida final nos distraiu diante da força do cavalo, numa peça intitulada: Why the horse? Dramaturgia de Fábio Furtado.

Junto com o elenco do grupo Pândega de Teatro, a cadeirante andou, a velha de 80 anos pariu uma malabarista e beijou e desejou todos os beijos da platéia. Restou engolir o drama da doença terminal, mesmo que tenha saído um arroto desavisado com gosto de self.

Por que o futuro que evocamos, diante da sua atuação, é a nossa própria morte. Essa é a advinhação, o mistério que ela nos adianta.

Uma atriz generosa e didática que sob o véu fúnebre simulou um compasso de espera, expressou a nossa insegurança com a própria fragilidade. Como não lembrar de outros velórios? Como não rememorar o sentimento do que não tem volta?

Maria Alice Vergueiro, a condessa canibal, devora o Parkinson e a linha do tempo. Vive outra coisa, uma sensualidade épica que nos convida para a morte criativa e o convite é bom, porque é um convite amoroso. Sim, ela continua viva, a peça volta a cartaz em breve. Sim, Maria é a vizinha do mês.

 

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Foto Fábio Furtado

 

 

 

 

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