Ebola, a cura irreparável

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Foto Jessé Alves

Ao se deslocar da capital Moronvia rumo à comunidade de Bong, na Libéria, Dr. Jessé Alves, responsável pelo setor de Medicina do Viajante, do Hospital Emílio Ribas, flagrou a desolação que a epidemia promove entre os liberianos.

A missão tinha como objetivo a auditoria do único ETU (Ebola Treatment Unit) da região, pertencente a ONG IMC (International Medical Corps), tarefa que exigia a presença na red zone (zona vermelha), local destinado aos infectados pela doença.

Vários vídeos publicados exibem a troca de roupa, capaz de assegurar a proteção necessária para os profissionais da saúde que precisam adentrar na red zone.

São camadas e mais camadas superpostas que isolam e protegem de algum possível contato com secreções. A vestimenta promove tamanha desconfiguração que impõe a marcação dos nomes na testa e nas costas de cada integrante da equipe.

Se preparar para a incursão na Red Zone é, de certa forma, mergulhar numa meditação ativa, na experiência máxima do isolamento e do pragmatismo que a situação exige.

Naquele dia, não seria diferente se um “choro doido” não chamasse a atenção do Dr. Jessé para o lado de fora da cerca.

“Era um choro doido, muito doido. Perguntei aos funcionários o que estava acontecendo e responderam que o homem recebia alta. Partia sozinho e deixava no cemitério ao lado do ETU, a mulher e os quatro filhos.”

Antes de se retirar da red zone, o rapaz teve permissão para visitar a família na área destinada ao enterro dos corpos contaminados. Entretanto, ao atravessar a linha que separa os doentes e mortos dos que conquistaram a cura, não resistiu à condição de único sobrevivente. Chorou.

“Um dos seus filhos foi o primeiro caso da vila e logo já passavam de trinta infectados. Tentaram queimar a casa da família e o ameaçaram de morte se ele voltasse.”

Não existe volta, qualquer que seja o caminho escolhido por esse liberiano. Não existe orientação possível. A mobilização internacional em torno da epidemia não prevê suporte para o que a sobrevivência ao Ebola não restaura.

Pretende-se salvar a humanidade, mas o que significa a salvação para esse indivíduo? Quais serão seus recursos? Como lidar com o estigma? Como apontar para esse africano o que a cura traz de bom?

A dança da solidão

Nessa mesma dia da visita ao ETU de Bong, um outro liberiano que trabalhou durante o período mais dramático da epidemia, e que foi afastado por nítidos problemas psiquiátricos, furou o isolamento e deitou-se num leito da enfermaria de casos comprovados.

Foi a primeira vez que algo do gênero aconteceu. A situação provocou um certo caos com a remoção da maior parte da equipe para fora da unidade até a captura do invasor.

Controlada a situação, ele foi levado para o isolamento destinado às pessoas que tiveram contato direto com infectados (um estádio de futebol).

Ao cruzar a red zone no sentido oposto ao da rota de cura e sem proteção, o anti-heroi fez uma aposta.

Um gesto capaz de aplacar o isolamento pela convivência mágica, indiferente aos riscos iminentes, mas que de algum jeito concretiza a torcida para que seja possível estar entre os seus sem o medo da doença.

Um pedido para que os sonhos voltem e que sejam reparadores diante de tamanha tristeza e desencanto, nessa parte da África Ocidental.

 

 

 

6 ideias sobre “Ebola, a cura irreparável

  1. Como não encher os olhos de lágrimas quando esta imagem desse homem sozinho e em desespero aparece nítida na cabeça? Como ser sobrevivente numa situação dessas?

  2. Alguns textos furam a barreira imposta pela linguagem e se aninham no interior da língua mãe a partir de onde assumem o perigoso destino de nos afetar. Este é um deles.

  3. Lendo esse texto, a gente se transporta e consegue imaginar, nem que seja minimamente, o que é viver uma tragédia tão absurda e tão pouco comentada pela mídia…

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