Ebola, no front da epidemia

 

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Monróvia, Libéria foto Jessé Alves

No último 24 de outubro, o responsável pelo setor de medicina do viajante, do Hospital Emílio Ribas, Dr. Jessé Alves, entrou no fluxo dos especialistas que combatem o Ebola, in loco, na Libéria.

Ele se dispôs a cruzar a linha que separa os leitores dos boletins científicos dos profissionais que colocam o corpo em ação, como o segundo brasileiro enviado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para a área que concentra o foco da doença, no continente africano.

A partir do relatos de viagem, ora fragmentados ora mais completos, compartilharemos a visão do infectologista que não diferencia a seriedade da missão da possibilidade de se avizinhar da população de Monróvia, capital da Libéria.

Marcelo Carnevale

 

De qual bagagem se trata?

O senso de urgência da missão impôs um ritmo frenético nos dois dias que antecederam a saída de São Paulo. Desde uma série de burocracias via Internet à emissão do bilhete aéreo, menos de vinte e quarto horas antes do embarque para Genebra, na Suíça.

Em torno da viagem, detalhes como a compra de roupas que serão descartadas na retorno ao Brasil e outros objetos sugeridos pelo grupo de amigos infectologistas experientes em missões na África.

Na lista de cuidados pessoais, a ingestão de remédio para profilaxia da malária e, no meio das escalas, a compra de um termômetro que esqueci – puro ato falho.

São procedimentos fora da minha rotina como médico e que provocaram alterações internas, como a náusea que me acompanhou a partir da metade das quatro noites da jornada: São Paulo/Zurique/Genebra/Casablanca/Monróvia.

A rápida passagem pela Suíça garantiu a formalização de todos os protocolos e orientações para atuar na condição de consultor da OMS, na Libéria.

Um corpo estranho na África

A República da Libéria, na África Ocidental, faz fronteira ao norte com Serra Leoa e Guiné, a leste com a Costa do Marfim e a sul e oeste com o oceano Atlântico. O primeiro impacto foi confirmar a absoluta restrição de recursos, no aeroporto de Monróvia.

O inglês liberiano também causa um grande estranhamento, quase outra língua. Os sotaques da população e dos estrangeiros não encontram um acordo e a comunicação se arrasta num desentendimento constante.

Entretanto, o maior impacto estava por vir: descer do avião e, de maneira compulsória, lavar as mãos com hipoclorito e ter a temperatura aferida antes de entrar no prédio do aeroporto.

“Imediatamente me veio a imagem de ser barrado no embarque de volta, ao medirem a minha temperatura. Espantei rapidamente o pensamento, pois tinha mais com o que me preocupar.”

No saguão do aeroporto, me esperavam um funcionário da OMS e Ruth, professora de antropologia médica da Universidade de Viena, que chegava para acompanhar as práticas de sepultamento, inicialmente ligadas à propagação do Ebola no começo da epidemia.

A cidade é modesta, muito modesta. Chegamos num dos piores momentos dos últimos 20 anos. Depois da guerra, a cidade nunca mais foi a mesma. Tudo coberto de fuligem ou pintado com tinta escura, cores fortes e ao mesmo tempo desbotadas.

Outra barreira invisível no front: diante do Hotel AAnex, que fica numa zona residencial chamada Sinkor, mais uma medição de temperatura com todos os integrantes ainda dentro do veículo.

O termômetro parece uma arma que é apontada para seu ouvido ou sua testa e ao registrar a temperatura, aciona um sinal sonoro que pode representar a roleta russa da febre. Se houver temperatura alta, ninguém entra em lugar nenhum e o sistema de emergência é acionado.

Monrovia

O hotel é bem confortável, parece uma pousada do litoral do nordeste.

Os primeiros dias são para cumprir mais procedimentos burocráticos, emitir documentação, fazer treinamento de segurança, comprar comida, conseguir dinheiro na moeda local que é o dólar americano, em notas muito velhas, sujas e amassadas.

As pessoas transitam tranquilas. Carros buzinam o tempo todo e os mercados estão repletos de baldes coloridos que passaram a ser a marca registrada da cidade. São eles que guardam os milhares de litros de hipoclorito usado diariamente por todos, durante a lavagem das mãos.

O trabalho demora para entrar no ritmo desejável, mas aos poucos vou entendendo melhor minhas funções, limitações e escopo de ação. Farei visitas aos centros de tratamento do Ebola para avaliar as praticas de controle de infecção. Parece simples, mas é uma realidade totalmente nova.

“Somente me mantendo saudável eu posso salvar vidas”

Os hospitais montados às pressas pela ajuda internacional são muito diferentes dos hospitais que conhecemos. Temos que aprender a entrar neles sem risco de nos contaminarmos.

Optei por um treinamento dado regularmente aos profissionais de saúde locais e estrangeiros. Tivemos sorte: somente eu e um colega médico de Uganda, num grupo de mais de cinquenta liberianos.

Ali, a vizinhança se deu realmente. Fomos quebrando o gelo, eu sempre fazendo perguntas às enfermeiras e, aos poucos, todos já queriam falar de suas experiências.

Um grupo de profissionais de saúde sobreviventes do Ebola reportou os dias difíceis dentro dos chamados ETU (Ebola Treament Unit). Eles são os verdadeiros heróis da batalha contra a epidemia.  As histórias que me contaram são comoventes, revoltantes.

“Sempre me pergunto se estamos muito apáticos diante da incapacidade da comunidade internacional para montar hospitais realmente efetivos que possam servir não só como isolamento, mas como centros de salvamento de vidas.”

Vestir o equipamento de proteção leva tempo e tirar a roupa é ainda mais trabalhoso. São camadas de proteção, processos repetitivos de lavagem de mãos com hipoclorito. Eles repetem como mantra: “somente me mantendo saudável eu posso salvar vidas”.

Farei minha primeira visita ao ETU (Ebola Treatment Unit), na chamada zona vermelha, aonde nem todo mudo tem coragem de ir.

Novamente, encontrei colegas dispostos a me guiar nesses primeiros dias . Uma vizinhança bem especial.

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Treinamento para entrar nas ETUs

 

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Dr. Jessé Alves consultor da OMS

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a vizinhança liberiana foto Jessé Alves

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A marca dos sobreviventes do Ebola foto Jessé Alves

 

 

8 ideias sobre “Ebola, no front da epidemia

  1. Atitude generosa e potencialmente efetiva e afetiva ! Todos somos serem humanos, frágeis e solidários ! Que Jessé siga seu caminho desejado nos aproximando de nossos irmãos! Oxalá tudo ficará bem! Grande abraço!

  2. Desde que nosso amigo decidiu entrar no foco da epidemia, tenho rezado muito para que td dê certo. E que ele volte logo, bem e saudavel!

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