Cidade dos sonhos

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A Última palavra é a Penúltima foto Marcelo Carnevale

– Tem algum bicho nas minhas costas?

O senhor ao meu lado, no ponto de ônibus, respondeu rapidamente ao rapaz:

– Não, está tudo certo. Não vejo nada.

O ônibus parou e aquela figura, que deve perambular muito pela cidade, alertou ao motorista: eu tenho dinheiro! E seguiu viagem.

A avenida Heitor Penteado, na zona oeste da capital paulista, voltou ao tédio da ausência de tráfego que permitia uma outra qualidade na permanência, uma espera lenta pela linha que se destina à Praça Ramos de Azevedo.

Uma preguiça coletiva pairava no final da tarde de domingo. Não mais um cansaço da semana anterior, mas uma indolência, uma passividade diante da energia necessária para se manter alerta – São Paulo exige que você mostre o dinheiro.

Vertigem

O que aconteceu ao adentrarmos pela passagem subterrânea da rua Xavier de Toledo (espaço abandonado que liga o Teatro Municipal à Praça Ramos de Azevedo) foi uma imersão nessa cidade sem pudores.

Estávamos dispostos a lidar com algum bicho nas costas, mais ainda com os grilos que impossibilitam a paranóica classe média de circular pelo que desconhece.

Sim, nessa montagem, o Teatro da Vertigem nos enreda numa invisibilidade liberada, quase pornográfica aos olhos do “cidadão do bem”. O local para a platéia era o exíguo espaço das vitrines que ladeiam a passagem subterrânea. Sem circulação de ar, esses compartimentos nos serviram de acomodação, dark rooms para os egos que se mesclaram sem nenhum tipo de distinção.

A Última palavra é a Penúltima 2.0

Lá, ficamos liberados para delirar diante do que se passava pelo amplo corredor num desfile frenético. Transeuntes misturados aos atores, gente que brotava pela fúria dos que desejam forçar a passagem e se esbarrar sem medo.

Ora manequins de vitrine, ora voyeurs, a platéia formava uma membrana, um plasma, onde antes se exibiam as últimas novidades de outros tempos.

Estávamos no mesmo nível de tudo que se articula no subterrâneo: os rios canalizados, o as rotas esquecidas e, também, o desejos menos apaziguados.

O Teatro da Vertigem nos projeta para uma convivência inesperada com esses lugares de São Paulo. Preenchem as lacunas de espaços inóspitos com uma narrativa que é puro acontecimento.

Tensão que se sustenta entre o espanto dos paulistanos integrados e o estado de alerta dos paulistanos que podem desaparecer sem vestígios.

Juntos, solidários, nós formamos o unguento, um remédio caseiro para a alma do centro.

A cidade se revelou na memória desse encontro.

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4 ideias sobre “Cidade dos sonhos

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