Na linha do tempo

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foto Henk Nieman

A arquitetura em São Paulo é marcada pela indústria. Permite que diante do que eu vejo, na Casa das Caldeiras, possa imaginar uma infância no bairro da Água Branca. Lugar que já resiste pouco às transformações de um urbanismo muito pobre.

Na época do subúrbio carioca, já experimentava o mistério do muro que isolava a linha do trem. Hoje, ele reaparece como marco divisório do terreno das Caldeiras, a guardar a via, o caminho para produzirmos a nova vizinhança.

Aqui, na avenida Francisco Matarazzo, o trem pede passagem como se nunca tivesse parado de deslizar. Produz um lado de lá e um lado de cá da linha férrea que sempre é um desafio de integração. Mas nunca impediu Madureira (bairro dividido em três partes por um sistema de dois ramais distintos) de produzir lindas harmonias na Velha Guarda da Portela ou no Império Serrano.

Nessa perspectiva, Madureira-Água Branca circulam como territórios autênticos, conectados pelo desejo de seguir na cadência das cidades. Ainda desconheço o lado de lá da linha que corta o bairro da Água Branca.

Mas sinto no peito a vibração desse sacolejo. Música para os ouvidos cansados do pizzicato solitário dos carros.

O trem tem um arranjo mais potente, traz acordes, frases musicais de autoria da cidade. Como coletivo, canta pedindo passagem para o que é industrial, para o que leva ao futuro, para o que tem senso preciso de direção, para o que funciona em larga escala e está sempre em movimento. A cidade que a gente deseja.

Ora ensurdecedor, ora vibrante demais, me parece que São Paulo fala quando o expresso passa. Meu orgulho suburbano se reconcilia nessa memória, como se eu dominasse um idioma – o barulho do trem.

2 ideias sobre “Na linha do tempo

  1. Marcelo, ontem li a Cidade Genérica do Koolhaas. Seu texto me fez lembrar das palavras dele: ” Ao expulsar/explorar os melhoramentos, a Cidade Genérica perpetua sua própria amnésia”…o trem resgata essa memória… Um convite a olhar pra fora e pra dentro. Uma pausa em movimento…
    Bjs
    Naza

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