Landscape, lovescape

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Ao refletir sobre a perspectiva do dia, dois planos se superpõem: ao fundo, a janela da sala revela a luz outonal sobre os prédios paulistanos. Tudo meio bonito, meio banal, como um cenário familiar depois de alguns anos.

Em destaque, colado as minhas retinas, três imãs de geladeira formam um relicário carioca.  São pinturas feitas na lata e que reavivam minha memória afetiva: Pão de Açúcar, Dois Irmãos e o morro de Santa Teresa, com o bonde passando sob um flamboyant.

As paisagens cariocas já foram banais, óbvias, também. Como tudo que se desgasta no uso, na convivência, na contaminação pelo cotidiano.

O que me salta aos olhos é a composição dos planos em perspectiva: a minha generosa janela paulistana, com um brilho de realidade e um convite sempre misterioso, somada aos três imãs na lateral da geladeira. Tudo se confunde com a cena íntima do café da manhã.

Essa é a minha paisagem

Fusão capaz de misturar a dúvida se está “dando praia” no Arpoador com o prazer de devorar o pão (imbatível) da Pinheirense, recomendado por uma das nativas mais bonitas da Vila Madalena.

A perspectiva brinca com a minha memória e o com os acontecimentos em tempo real, com o meu estrangeirismo e a total intimidade com o lugar. Forma um quadro único, exclusivo, a minha casa paulistana.

Essa felicidade urbana mora na possibilidade de poder inventar o meu cenário e descobrir os atalhos que me proporcionaram conhecer o meu pão predileto.  Coisas da vizinhança.

São Paulo como mil cidades aos olhos de mil habitantes, 11 milhões de cidades aos olhos de 11 milhões de habitantes.

O que escapa, o que deve escapar

No oposto dessa fragmentação e individuação, está o cerceamento ao intercâmbio dessas doze milhões de cidades. Muros, cercas elétricas, na promessa do lazer total e privado.

Total na ausência de brechas para a invenção do espaço e acachapante na queixa enfadonha de quem afirma passivamente “que está tudo errado na cidade”.

Como queremos o embelezamento, a melhoria, sem nos dedicarmos primeiramente a interagir com a paisagem? Sem dividir o que vejo, ou compartilhar meus atalhos prediletos, com quem se avizinha no espaço público?

As cidades não existem sem a presença efêmera do nosso olhar. Elas não nos protegem de planos e contraplanos, desejos estranhos e selvagens.

Atraentes como um love ou brilhantes como o céu ruidoso que insiste em convidar para mais um dia nesse louco landscape.

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