“Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria.” Clarice Lispector F. 9-12-1977

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Amendoeiras II
Ana Carmen

Falar da vizinhança pelo viés do que talvez seja pouco familiar. Os cemitérios, mesmo estando dentro das cidades, se apartam do caos urbano onde a vida engarrafa, buzina, se exaspera e apressa.

São remansos e relicários de coleções de lembranças – entes queridos, epitáfios, fotografias, adereços –  e por isso talvez tenham certas afinidades com museus, além das cidades, é claro.

Falar em voz baixa, emocionar-se, sentir-se saudoso, ficar desolado ou apaziguado são algumas das conhecidas sensações que o luto e a melancolia do cemitério e seus invisíveis e pétreos habitantes podem nos provocar. Ou provocar em quem tem o hábito, a cultura, de ir ao cemitério.

Povoado de casas feitas sob medida para um corpo deitado, grafado em milhares de frases, nomes e datas de nascimentos e morte, ilustrado por uma miríade de fotografias sorridentes ou circunspectas, decorados com flores vivas ou de plásticos, estátuas em tamanho real ou miniaturas e vasos. Ali se abriga esta estranha coleção de reminiscências.

O que os muros separam?

Cemitérios são cidades dentro de cidades e por isso talvez a noção de vizinhança como arredores, como fronteiriço, seja interessante. Cidadelas muradas, guardadas por portões, feitas de ruas estreitas ou largas avenidas e onde um caminho as vezes nos leva a [a dar com a cara no muro] um beco sem saída, fechado pelo muro de divisa que silenciosa e rigorosamente separa  a cidade dos vivos da cidade dos mortos.

Encontro no cemitério silêncio, as vezes temor, dores pungentes ou domesticadas pelo tempo, saudade, a vontade (ou a necessidade) de cumprir o ritual que nos ajuda a esvaziar o desejo daquele que perdemos. Enterrar os mortos é um ofício, um dever, uma tradição, uma arte. Uma forma de realizar o luto e aos poucos libertar nosso desejo para que possa novamente desejar.

Visitá-los, um capítulo à parte no cotidiano da vida assoberbada da grande cidade. Fotografá-los uma ousadia difícil de explicar diante da vala comum de julgamentos que frequentemente associam o interesse por cemitérios a um comportamento mórbido ou funesto.

Um convite à eternidade (por cinco minutos)

Avizinhar-se do cemitério é se aproximar de um labirinto. Onde quem sabe o Minotauro pode ser a Morte a nos desafiar para uma partida da xadrez.

Se por um lado os cemitérios soam como miniaturas de cidades, nas fotografias e fora da escala humana, aparecem como cidades reais e não diminuídas aos sete palmos reservados pela morte.

Enquanto isso no cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, um cortejo fúnebre formado por três pessoas e um coveiro levam para o último passeio Thaís, uma travesti assassinada por um motorista de táxi em Santa Teresa.

Ela lhe pediu que ele a levasse ao fim do mundo, em cinco minutos. E o fim do mundo era ali, por cinco minutos, loteamento clandestino de covas rasas, apenas cinco minutos, barro pouco para tanta plantação de corpos suturados e gelados, assassinados e não reclamados por ninguém, em cinco minutos.

Na contraluz do sol poente, os coveiros eram como camponeses arando a terra, e não havia carpideiras, semeadura, plantio de flores, nem choro abafado ou desespero, apenas o caixão atônito e os cinco minutos da eternidade.

Última homenagem: a imagem preservada, testemunhos da partida de xadrez perdida, depositada no altar da sublime profanação da imagem que é fotografar o cemitério e seus moradores.

Ana Carmen Jara Casco (na vizinhança)

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Fin del mundo
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4 ideias sobre ““Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria.” Clarice Lispector F. 9-12-1977

  1. Texto lindo, as palavras vão conduzindo a um lugar lá dentro, bem guardado. Me fez lembrar o cemitério de Fortaleza, Campo da Esperança, que é formado por um grande gramado e as lanternas marcando o lugar dos corpos. Quando aquele lugar é visitado a vela da lanterna é acesa, deixando ao entardecer um cenário muito delicado, pontuado de pequenas luzes junto ao gramado.

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