La frontera entre yo e vos

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Montevidéu

De repente, num improviso típico de um reveillon clandestino, seguimos diretamente da Vila Madalena para Montevidéu. Tirar o carro da garagem para ganhar a estrada e chegar no estrangeiro, tem algo de mágico. Virei criança de novo.

Queria, sim, cumprimentar o vizinho Uruguai pelo sopro de criatividade e leveza que ele engendrou na pauta latino-americana, em 2013.  Queria comprovar a intuição de uma capital menos comprometida com o positivismo estadunidense e todas as implicações que a excentricidade proporciona a essa condição.

Excentricidade no sentido mais literal: “fora do centro”, nas bordas dos países que protagonizam a política do bloco: Brasil e Argentina.

Montevidéu me pareceu muito mais próxima

Cidades velhas. Tenho esse prazer dos bares que não estão na moda, da decadência que devolve a beleza das coisas que tiveram seu uso esquecido. E continuam lá, a expressar sonhos de cosmopolitismo.

Procuro sempre a mesma cena: a casa do meu avô português, marceneiro, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro.

Nela, encontrei toda a sofisticação das coisas que foram feitas para narrar a história de um imigrante com sua loucura, seu cachimbo e sua arte.

Como o neto caçula, cheguei depois da festa (e do drama familiar também). Mas a casa de São Cristóvão, mesmo abandonada pelos filhos do português, me educou para essa estética: dos detalhes carregados de uso e por consequência, impregnados de sentimentos.

O centro da capital uruguaia me ofereceu uma nova versão de São Cristóvão. Enquanto a maioria correu para as praias de Punta del Leste, o point globalizado do país, eu retomava meu prazer de flanar por calçadas generosas, sob a sombra de copas frondosas, namorando o comércio de rua.

O realismo fantástico do nosso continente

Cada vitrine, cada desenho de oferta escrito à mão, constrói uma narrativa social. Cabe, também, ao comércio local afirmar a identidade e expor os humores de uma cidade.

Talvez estivesse iludido com a proximidade, mas gostei da minha ilusão. Que tipo de fantasia os lugares suscitam na gente? A narrativa que escolhi para ler Montevidéu é a que acena com a cordialidade. 

A que permite um diálogo entre o português e o espanhol, a que se anima num acordo capaz de enxergar o portunhol como uma celebração do encontro.

Entretanto, se a proximidade nos tira da realidade, de qual distância estamos falando? De uma semelhante a que percorreria para chegar da Vila Madalena a Salvador? Não, da distância que nos condicionou, como habitantes do sudeste do Brasil, a olhar para o mar e nunca para dentro, para a beleza de Jaguarão ou dos pampas ou de qualquer outra fronteira sul-americana.

Nos distanciamos também da língua e da literatura espanhola. Me senti muito estrangeiro por não conhecer os contos de Quiroga ou poder brincar um pouco mais com o espanhol.

Mais insisto: somos vizinhos. Mesmo sem prestar muita atenção, a gente conhece de algum jeito os hábitos do país de Pepe Mujica. Lojas de noivas como as da rua das noivas, em São Paulo, música romântica, quitandas, galerias comerciais como as de Petrópolis, no Rio.  E alguma coisa inexplicável que dá orgulho se ser latino.

Voltei pra casa com a sensação que os voos consomem a nossa humildade. Chegamos rápido, sem a errância necessária para acreditar num perto-longe que implica em deslocamentos mais sutis, numa cordialidade sem pressa, para fazer do espanhol um idioma familiar.

Gracias, Montevideo.

 

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12 ideias sobre “La frontera entre yo e vos

  1. Estive em Montevidéu em setembro e tb tive sentimentos de amor por nossa latinidade, história, arquitetura, língua, simpatia. Adorei o jeito dessa cidade, que me remete a uma memória do que não vivi. Grande abraço.

  2. Texto delicioso, e sensibilidade aguçadíssima pra sacar as pequenas belezas escondidas nas frestinhas desse mundo que a gente faz de tudo pra transformar em Vila Nova Conceição, mas que insiste em se insinuar Ciudad Vieja.

  3. Concordo, que ir de avião eh passar sim por cima das coisas e gente. Alguém me disse: para quê pressa, se vc. estah num lugar maravilhoso?

  4. Mi comentario es positivo pero al mismo tiempo tendencioso. Soy uruguayo , me gusta todo lo nuestro con algunas excepciones. Prefiero que no me preguntes cuales son esas excepciones. Todo en la vida es opinable… y aquello de “que todo tiempo pasado fue mejor… y como después de acordado da dolor” (Manrique) parece cosa de “seniors”( para no decir ïdosos”o viejos) … y es y continuará siendo verdadero : estamos perdiendo identidad dejando que el atropello de lo nuevo, de lo técnico sustituya el romanticismo de lo antiguo, de la paz, del amor, de la tranquilidad, de la rutina…. Buen día para todos

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