Vila Madalena, versão acústica

 

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Henrique Diaz
foto: marcelo carnevale

É dia na Vila Madalena. Duas babás estão com as respectivas crianças no tanque de areia da pracinha. São poucas as pessoas na praça, são poucos os moradores a circular pela rua Girassol.

“Esse quarteirão guarda uma vaga lembrança de um lugar em profunda transformação.” Explica Henrique Diaz, 32 anos, músico, há 28 anos no bairro.

A casa da família Diaz fica em frente ao meu apartamento, sempre protegida por uma espessa folhagem. O som que o músico cria no estúdio da casa traduz o que as construtora tentam vender como o “clima artístico da Vila”.

La noche del Vilarejo

A amizade com Henrique tem a ver com a escala do meu prédio (três andares), com a ausência de muros na casa da família Diaz, com o talento dos músicos da banda baoba stereo club, Paulo Soares (Snoopy), Bruno Gold e o próprio Henrique Diaz, que me surpreenderam com arranjos improváveis, em meio ao som incidental dos carros que passam pelo final da rua Girassol.

“Essas duas praças fazem parte da minha vida. Impressionante como eu recorria a elas e ainda recorro. Sempre que penso a Girassol, eu penso no seu prédio de tijolinho e na minha casa. Algo que influenciou muito o som que faço.

O prédio do Marcelo, a casa do Henrique, o prédio da Malu, a casa do Álvaro, um vilarejo invisível para a alta velocidade dos carros, para a paranóia por segurança privada nos prédios de luxo. Os novos moradores e consumidores da grife de arquitetura Isay Weinfeld /Ideia! Zarvos não vão desfrutar dessa paisagem social. O aparato que os distancia da vida comunitária não permite.

A aura  de um bairro mais libertino se perdeu, estamos mais reacionários, mais emergentes, reflete Henrique.

Invisibilidade garantida também para negros, gays e nordestinos que já não frequentam o que o músico considera o quadrilátero dos bares: ruas Fradique Coutinho, Aspicuelta, Mourato Coelho e Wisard.

“Um casal de amigas não queria ir nos botecos da rua Aspicuelta porque os caras mexeram com elas. Esse episódio me chamou a atenção para a mudança dos aspectos do bairro.”

Na Vila impera um bom-mocismo geral. Eu mesmo sou um exemplo disso.

No estúdio, seu antigo quarto na casa, Henrique me conta que o bairro nunca teve um DNA artístico, nele sempre prevaleceu a boêmia estudantil ligada à USP.  Hoje, são duas as surpresas aos olhos da memória de menino: a vegetação e os prédios que cresceram muito.

“Nunca fomos um bairro doido, como Santa Cecília, lugar no qual tudo está misturado. Tem sexo na rua, consumo de drogas na calçada, concentração de todo os tipos de gente.

Aqui, a geração de estudantes dos anos setenta se firmou como uma elite conservadora e de bons modos. Não temos, entre os moradores, velhos bêbados, travestis ou  alternativos. Sou paulistano, toco música instrumental/jazz contemporâneo – uma coisa muito boy.”

O músico optou por não ter carro, mudar para o bairro de Perdizes e buscar uma vizinhança menos monotemática, na qual não se reconheça. Sorte minha que a família Diaz ocupa a casa generosa, com o estúdio inclusive. A presença do grupo continua garantida, de algum jeito.

“Aqui, o excesso de conceitos, de consumismo, de experiências gourmet, apagaram a beleza do trivial. Eu não quero a melhor comida do mundo, o melhor café do mundo, a melhor cerveja do mundo. Gosto da simplicidade, da vida de bairro.”

A guitarra do músico confirma a declaração de que a vida nunca foi hostil com ele. Mas justamente esse som delicado, de acordes mais sutis, capturou minha atenção do outro lado da rua. Dentro do ecletismo possível, experimento uma outra cidade, mais a ver com os que deixaram suas famílias em outros estados e vieram trabalhar e morar sozinho, em São Paulo. Que surpresa boa os temas ensaiados à tarde.

Henrique se identifica com o processo de composição de Tom Jobim. A música que o vento sopra do outro lado da rua inventa um Redentor na minha janela. Descubro que se trata de La noche del viajero, com certeza uma noite mais quente e acolhedora para a Vila Madalena. Somo vizinhos de fato.

Para ouvir

La noche del Viajero (trecho gravado da minha janela)

La noche del Viajero (versão integral baoba stereo club)

noche de los girasoles

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4 ideias sobre “Vila Madalena, versão acústica

  1. do lado da janela, a malu sonha com outras noites, outros vilarejos, como se sonhasse o sonho de outro dono. bonito marcelo! crônica, informação, código, fluxo, poesia, amizade de vilarejo. também envelheço na cidade. parabéns!

  2. esse sentimento de pertencimento é uma joia rara no nosso tempo… ver isso escrito, ouvido, falado, degustado e, principalmente, escolhido é experiência muito boa, Marcelo.

  3. Muito bacana, Henrique ter se diferenciado da massa consumista e individualista que assola a sua geração! O fato de ter a família maravilhosa que ele tem o ajudou a ser esse sujeito sensível e perceptível aos detalhes que fazem a diferença e certamente isso se reflete em seu SOM!

  4. Lembro de uma tarde na sua casa em que desligamos o som pra acompanhar o ensaio da banda do outro lado da rua. Delícias da vizinhança.

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