“Pobre não é burro!”

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Vandré Brilhante

Ouvi essa frase, dita de maneira enfática, ao entrevistar Vandré Brilhante. Aos 48 anos, economista e empresário, Vandré é presidente do CIEDS – Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável. Ele completou, “É quase um prazer afirmar, quando estamos num meio intelectualizado, que pobre não pensa. O problema do pobre é a falta de oportunidade. A inteligência é a mesma para todos.”

Suas palavras, ditas com tanta veemência, revelavam para mim a experiência de quem atua há vinte anos com as diferenças sociais brasileiras.

A conversa seguia numa agenda carioca improvável, ali, num daqueles bares a beira mar de Copacabana. Ponto turístico, lugar-nenhum dentro da vida de bairro.

Esse deslocamento me permitia refletir sobre a falta de uma educação qualificada, que impede a grande maioria de desenvolver as habilidades para participar da pauta estratégica do país. Trata-se de uma massa reprimida, sempre manipulada, segundo Vandré. São pessoas que, quando incluídas no debate, aparecem como parte de um grande teatro participativo,  “uma grande encenação de condução de manadas,” em suas palavras.

Me sentia estrangeiro naquele calçadão. Copacabana, supercondensada, há muito tempo condenou a “minoria habilitada” a negociar com essa maioria “que não pensa”.  Copacabana é a vizinha que coloca todos os meninos no mesmo pedaço da areia e não se alarma com os choros pelas mordidas ou arranhões.

A cena carioca me parecia perfeita para refletir sobre esse país heterogêneo, promíscuo e no sufoco. Desigualdade bruta que a gente teima em evitar no apaziguamento de um discurso frouxo sobre inclusão e sustentabilidade.

Quem seduz e quem é seduzido?

Vandré olhou para o calçadão e disparou, “Como a pessoa não teve a oportunidade de desenvolver conhecimento e autoestima, e de entender que tem direito ao bem-estar (tanto quanto eu ou você), é muito fácil de ser ludibriada.

Mas não é burra, porque está usando esse tipo de manobra em interesse próprio. Aí é que está a virada da coisa: se aproveitar para conquistar uma casa, um botijão de gás, uma telha – a única forma de negociar aquela oportunidade.” 

“Vejo uma ausência de liderança comunitária no Rio e em São Paulo” 

Segundo o empresário, desde a Rio 92, o movimento social no Brasil deu uma guinada. Até a década de noventa, a liderança comunitária era forte, composta por moradores presentes há trinta, quarenta anos, nas suas localidades. Eram figuras que discutiam com traficantes, que eram respeitadas pelos candidatos e políticos em geral.

Com a mudança da pauta, com a defesa pelas eleições diretas e pelo direito à democracia, houve um ajuste de foco no trabalho social. Surgiram os especialistas no terceito setor. “Isso mexeu muito com o perfil da liderança comunitária. Começamos a levar para dentro das comunidades todo tipo de projeto e de promessas que não foram cumpridas. As favelas e outros núcleos carentes viraram um grande laboratório de ONGs no país. Resultado: enfraquecemos o movimento comunitário e o terceiro setor no Brasil.”

 A tarde avançava naquele café vazio, cenário bastante conhecido para a realização de entrevistas gringas da indústria do entretenimento.  Mas Copacabana, dessa vez, mostrava para mim o Brasil e suas falsetas.

Vandré continuou a reflexão sem nenhuma espécie de ressentimento. Segundo ele, a bandeira que era a da democracia, mais ligada à cidadania, diluiu-se em temas como o meio-ambiente, a justiça e o combate à prostituição infantil. A busca dos universitários por ONGs reforçou propostas unilaterais nas comunidades. “São os alunos da USP que decidem que vão transformar o Jardim Ângela numa comunidade sustentável. Mas a decisão foi tomada dentro da USP, sem a participação do Jardim Ângela. Hoje, as comunidades não querem mais projetos, sejam do governo ou de ONGs. O que desejam é saúde, uma rua mais limpa, o básico.”

Nas áreas urbanas do Brasil há muitos interesses de poder e protagonismo que não refletem de fato o interesse da base, apontou Vandré. Os instrumentos de participação dentro da comunidade são muito poucos. O espelho é o mesmo. “Nunca me iludi que o líder da comunidade seja amado. Ele fez  carreira política local ou está lá de maneira imposta.”

Segundo o empresário, atualmente são os grupos religiosos (que vivem dentro de um espaço de troca) e grupos de jovens, através da cultura e do esporte, que reivindicam a nova liderança comunitária. Ele afirmou não conhecer comunidades urbanas com espaços de participação que tenham realizado mudanças efetivas em seu contexto. Os líderes são amados e odiados, com interesses muito próprios, numa recorrente política pública sem continuidade.

“Hoje, todo mundo fala em sustentabilidade, felicidade interna bruta, amorosidade, prosperidade. Mas o que é isso pra quem nunca teve acesso ao consumo?”           

“A demanda por consumo é alta. Por que eu tenho ar condicionado ligado no verão, o dia inteiro, e o cara que mora no morro não vai ter? Como equilibrar a vontade de consumir padronizada pela mídia? Ou ter o mesmo padrão definido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em termos de alimentação?”  Vandré Brilhante vai além, “Não tem comida pra todo mundo se a Ásia e a África adotarem esse padrão americano. O planeta se exaure.”          

Por trás de um discurso que aponta uma crise crônica, o que ficou evidente ao conversar com o empresário foi a necessidade de fazer um pacto pela vida. Como mudar o padrão de consumo e a ideia de individualidade que se tem hoje?  Como começar a focar em compartilhamento, integração, troca, comunidade?  Em sustentabilidade real, enfim?

“Hoje, o terceiro setor é tão egoísta quanto as empresas. Ele critica o mundo corporativo, mas age da mesma forma” – argumentou Vandré. Ele acredita que o país será mais próspero quando as relações pessoais e institucionais estiverem mais bem estabelecidas. Quando reclamar não for um desafio para as pessoas, e quando os espaços de atuação estiverem mais definidos por  uma contectividade interpessoal.

O que se aprende nas areias de Copacabana?

O CIEDS, presidido pelo empresário Vandré Brilhante, abre espaço para que esse país aconteça nas escolas, locais de mediação com a comunidade. Vandré entendeu que é preciso devolver o estímulo ao professor e fazer do núcleo escolar uma vizinhança que escuta.

Nada disso evita mordidas e arranhões, mas o espaço fica mais democrático e o desevolvimento sustentável, assumido como propósito na Rio 92, reaparece amadurecido.

O empresário se despediu com a mesma cordialidade que garantiu nossa conversa de última hora.

Fiquei ali, anônimo, turista, estrangeiro, numa Copacabana nada inocente. O lugar ao sol, na faixa de areia, exige um olhar atento.

 

redação: marcelo carnevale                 edição: heidi strecker

 

 

 

 

4 ideias sobre ““Pobre não é burro!”

  1. Conheço bem o trabalho do Cieds a qual sou parceira há algum tempo . É sem duvida uma Instituicao do 3o milenium que pensa o Ser Humano de nova forma política que os seres humanos tanto almejam. Humanismo Solidário que quer resgatar valores positivos que existem dentro de cada pessoa e torná-los ação.

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