Zona Leste é o levante de São Paulo

 

IMG_1934Se olharmos de frente para o sol que acorda essa cidade e faz vibrar seu trânsito e suas verdades, devemos olhar para a zona leste. O desafio de enxergar o leste –  para além da Mooca, do Tatuapé ou do Jardim Amália Franco – é monumental.

Seguimos, à convite do professor da PUC-SP, Nelson Brissac Peixoto, em direção ao cenário do projeto ZL Vórtice – Intervenções Urbanas.

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O passeio reuniu arquitetos e urbanistas da Escola da Cidade, da FAU-USP e da FAU-PUC. Como roteiro, uma fração do território delimitado por rios/avenidas: o Aricanduva, o Verde-Jacú e, ao norte, o Tietê, na altura do Parque Ecológico.

Percorremos um trecho caracterizado pela diversidade do sistema de transporte: metrô, auto-estradas e trens de passageiros e carga. Lugares dos quais sempre escapamos para chegarmos a algum ponto familiar e estruturante na São Paulo dos clubes e escolas de alto padrão.

O refluxo na boa mesa paulistana

Existe um silêncio, uma vaguidão, no pensamento do urbanista mais articulado quando o tema é a zona leste.

Seguir rumo ao pólo Itaquera ou av. Jacu Pêssego é o negativo de uma estatística que registra um milhão e meio de trabalhadores rumo ao sentido centro-zona oeste. E, também, sul – a maior concentração de novos negócios de São Paulo.

No Leste, na manhã daquela sexta-feira, estávamos na área residencial de quem trabalha para as famílias da classe média paulistana: empregadas domésticas, porteiros, comerciários, seguranças. População que garante o bom funcionamento da cidade que conhecemos.

Esse movimento pendular (oeste-leste) gerou um silêncio, uma errância, sintomas de um certo despreparo para lidar com o que a paisagista Maria Angela Faggin observou: a paisagem como formação social.

Ficaram claras as minhas limitações como habitante da cidade. Efeito colateral da ausência de integração. Um sectarismo incapaz de promover um traço de reconhecimento entre as áreas. Ausência de um diálogo espontâneo.

O grande esforço do ZL Vórtice (com ótimas palestras no youtube) é compreender que a invisibilidade da zona leste traduz a nossa invisibilidade como cidadãos.

Paisagem na neblina

O projeto atrai menos pelo que dele conseguimos reproduzir como conceito e mais pelo que, através dele, conseguimos vivenciar.

Interessante que para um lugar saturado de problemas, como a favela Pantanal, poder inventar novas hipóteses de integração/diálogo é tocar na cidade invisível que se movimenta de maneira mais humana.  Ou como o diz o texto de apresentação: o vórtice é onde a reinvenção da cidade pode acontecer.

A aproximação com a zona leste nos devolve uma potência criativa. A imagem que remete à uma força concêntrica, lida com uma representação, em escala, de um eixo de articulação com o aeroporto de Guarulhos, o rodoanel sul e o porto de Santos.

São vinte e dois milhões de habitantes, no que entendemos como a grande São Paulo.

Como não pensar na diversidade e no que ela imprime numa cidade-despenhadeiro como a nossa?

A grande São Paulo, sempre nesse movimento forte e giratório, é grande porque é humana. Vamos mergulhar?

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