Rio, mon amour

 

Dans la vie (França 2007), de Philippe faucon. Com Sabrina Ben Abdallah, Ariane Jacquot, Zohra Mouffok.

Dans la vie (França 2007), de Philippe Faucon. Com Sabrina Ben Abdallah, Ariane Jacquot, Zohra Mouffok.

Ontem, conversava com um amigo paulistano sobre a influência francesa no savoir vivre carioca. O melhor exemplar dessa percepção é um programinha bem doméstico, que acontece todas as segundas-feiras, às seis e meia da tarde, no Institut Français: Cinemaison Rio – Cinefrance. Estive numa das sessões, que são sempre gratuitas, numa área do centro da cidade que me é muito particular: o Castelo.

Esperava uma amiga e logo identifiquei a fila na calçada. Quando me posicionei, fui enredado por um casal da terceira idade que conversava, em voz bem alta, sobre a programação cultural da semana. 

Logo, uma ideia me ocorreu: será que serei brindado com esse papo na poltrona ao lado? Essa neurose que sempre me cutuca quando entro no cinema.

A fila tipo “outdoor”carioca acabou me distraindo. Um mendigo pedindo grana, um camelô vendendo bilhete da loteca, mais gente da terceira idade chegando e então me dei conta que a velha guarda aproveita muito a cidade. 

De repente, percebi que depois dos quarenta me vejo como futuro colega dessa turma. Resolvi ser mais tolerante com a possível sessão sala de TV no cinemaison.

Mais tarde, descobri que a minha cumplicidade improvável nada tinha a ver com o meu medo de envelhecer, falar alto por aí  e ser censurado por um tipinho azedo na fila. Percebi que meu encantamento com o grupo passava pela vontade inabalável (deles) de explorar a vida cultural da cidade.

Decadence avec elegance

O filme de Philippe Faucon, Duas Senhoras (2007) é uma comédia que trata de religião e tolerância. O texto do cinemaison resumia a história: a mal humorada Esther, uma velha dama judia, tem de aprender a conviver com a sua enfermeira Halima, uma mulçumana praticante. Como na maioria dos seus filmes, Philippe Faucon trabalhou com duas atrizes não profissionais (que dão um show de interpretação).

Eu, que não tenho muita paciência para comédias, filas de cinema, gente que fala alto na sessão, de repente me senti tão adaptado/desencanado… com uma jovialidade que tem a ver mais com disposição para o inusitado e menos com apego aos confortos que garantem uma segurança boba sobre todas as coisas. A fila andou, o vento da Guanabara fez a curva na av. Pres. Antônio Carlos e estávamos todos, ali, no Institut Français, que garante o cineminha “na faixa”, como se fala em SP, sempre às segundas. 

 

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