Passar a tinta sem saber quem vai pintar

Dalton Camargos   foto Marcelo Carnevale

Dalton Camargos                                                                                         foto Marcelo Carnevale

Definitivamente Dalton Camargos nega o discurso pronto, daqueles que revelam o êxito do seu novo projeto: a galeria Alfinete, em Brasília.

Após cada exposição, a única certeza é a de que ele próprio arregaça as mangas e pega a lata de tinta para zerar o espaço.

O tamanho da Alfinete permite essa atuação direta. É possível flagrá-lo pintando a fachada, num domingo à tarde, na entrequadra comercial da 116 Norte, em Brasília.

Um convite para uma aproximação possível com o público, qualquer que seja ele. Dessa forma, o contemporâneo se manifesta, ali, no bairro, eventualmente com a ajuda de um observador que precisa garantir um biscate como ajudante de pintor.

Ele é o sujeito das artes, assim como tem o dono do café, o dono do brechó, além do chaveiro que é o síndico do pedaço.

O estrangeirismo que Dalton nos revela não se dá nesse universo das relações do comércio e do passeio público. Tem mais a ver com um deslocamento que confunde e intriga quem busca uma resposta para as próprias projeções: ele é o dono ou o faz tudo? Ele é artista ou não faz nada? Inclassificável – ahhh é arte contemporânea…

As portas abertas da Alfinete são um convite. Para Dalton, se você não vê, você não sabe que existe. Por isso, ele está sempre atento aos novos visitantes.

Gente que demora a se permitir conhecer o espaço e os trabalhos. Passantes apressados que rompem a inércia e que entram e saem rapidinho, arriscando um tchau.

“Eu comecei a reconhecer essas pessoas porque são vizinhos. Sempre agradeço a visita, anuncio o próximo evento da galeria”. Uma aproximação lenta, conclui.

Ponto no mapa

Brasília é emergente e o normal dessa cidade é as pessoas procurarem o que aparece, o que é vistoso, o que é bonito. É um desafio pensar algo muito pequeno para uma cidade que não enxerga o pequeno, Dalton reflete.

Mas quem é o ponto no mapa? A Alfinete traduz o novo ecossistema da cidade. Na quadra, funciona o Café Savana, famoso pelo clima gay-alto-astral e pela boa cozinha; o Llolla Labe & Peluquero, brechó descolado que chegou na esteira da nova ocupação e, claro, o chaveiro-síndico.

Ao circular pela rede que se constitui nessa área, o mapa se reinventa e nele cabe muita coisa. “É o exercício de enxergar um objeto e dar mil significados para ele”. Viva o quadrado modernista.

A pracinha vai ganhando esse astral de Beco do França (SSA), de Pedra do Sal (RJ), de Praça Roosevelt (SP), vai criando aquela felicidade que é parecida em qualquer canto do país: chopp, amigos, um bom papo.

Suficiente para arrancar de qualquer visitante a mesma constatação: Brasília tem coisas incríveis. Ponto para a Alfinete. 

“Sabe essa coisa que todo mundo vai ficando feliz com essa situação”

Foi Ralph Gehre, artista plástico, quem me apresentou o lugar. Filmei uma das minhas configurações prediletas: subsolo com pátio, lojas com portas abertas.

Não falta disposição, não falta conteúdo, muito menos surpresa. Tampouco é necessário discurso para preencher vazios pictóricos ou promover conexões com trabalhos conceituais da Bienal de Veneza.

A vida está lá, marcada a alfinete. Sob medida para quem acredita que viver é o melhor estado de arte.

Se você, assim como eu, deseja a chave da cidade, pode fazer um arranjo, ali mesmo, com o chaveiro da praça. Depois, pode passar essa “chave” adiante (basta entregar ao Dalton). 

A empatia é certa: o galerista, dono da Alfinete, sempre se coloca no lugar de quem não sabe como vai fazer. Haja tinta. Os artistas e os vizinhos agradecem.

 

Vernissage na Alfinete                                               foto Dalton Camargos

Vernissage na Alfinete                                             foto Dalton Camargos

 

Coletivo Transverso                                                                            foto Dalton Camargos
Intervenção na fachada

 

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Júlia Gonzales                                                                         foto Dalton Camargos
Intervenção na fachada

 

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Lucas Gehre                                                                                        foto Dalton Camargos
Intervenção na fachada

 

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Dalton Camargos na Alfinete                                                      foto Marcelo Carnevale

 

nome - Estudando a paisagem, escutando tom Zé                                                                                     foto Dalton Camargos artista Polyanna Morgana desenhos e objetos

Estudando a paisagem, escutando tom Zé                             foto Dalton Camargos
Polyanna Morgana
desenhos e objetos

 

Percaminho           foto Dalton Camargos Carlos Lin Objetos e instalações

Percaminho                                                              foto Dalton Camargos
Carlos Lin
Objetos e instalações

 

Aim d'jast lukin                                                       foto Dalton Camargos Oziel Video instalações e objetos

Aim d’jast lukin                                                              foto Dalton Camargos
Oziel
Video instalações e objetos

 

6 ideias sobre “Passar a tinta sem saber quem vai pintar

  1. adorei saber do blog, via a galeria alfinete, dois amigos queridos e nem sabia que vcs estavam em contato… em março faço exposição lá, tomara que vc possa visitar! buo grande, g.

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