Na chuva para se molhar

Da esquerda para direita, Coutinho e Breno Rodrigues

Da esquerda para direita, Coutinho e Breno Rodrigues

 

No último 5 de outubro, nosso blog foi lançado em Brasília. Encontro que reuniu o professor e arquiteto José Carlos Coutinho, o arquiteto Breno Rodrigues, o artista plástico Ralph Gehre e a designer de jóias Thelma Aviani. Os três estudaram arquitetura com Coutinho, na Universidade de Brasília (UnB). Até eu, que não sou arquiteto, me senti aluno dele. 

O sábado prometia um tempo instável, mesmo a figueira majestática que abraça a área estava submetida às surpresas dessa primavera brincalhona, que seca e molha sem avisar.  Com mesas ao ar livre e um porão aconchegante, acabamos ocupando todos os espaços. Assim estava o Cobogó Mercado de Objetos: um dentro e fora, uma Brasília doméstica, nada monumental, um quintal com amigos e um professor.

 A roda da rede

Como falar da intimidade de uma cidade, sem pertencer a ela? O debate sobre vizinhança em Brasília, comprovou que podemos ser vizinhos de várias formas: por afinidade de ideias, por afeto, por disponibilidade, por curiosidade, por outras maneiras de se viver as comunidades. Gente que não escolhe o real em detrimento do virtual, e, quando se junta, compartilha o suburbano coração.

Festejamos o encontro com mate da pizzaria Don Bosco, dica da Mariana, dona do Cobogó. Mate que me fez lembrar da alegria do verão carioca, na surpresa das pessoas que foram prestigiar o lançamento do blog.

Aos sábados, sempre tinha mate gelado na casa da minha tia Zoca, assim como naquela tarde brasiliense. São memórias que criaram um clima familiar e contribuíram para a conversa. O encontro tinha um  quê de vila, de boteco, de porta de escola, de teatro alternativo.

A memória de Brasília é muito recente e misturada. Traz tempero nordestino, carioca, paulista, mineiro, gringo. A velha geração pôde contribuir para transformar o acampamento do canteiro de obras em um plano piloto. Mas, hoje, quem lá nasceu nos anos 1960 ou chegou ao longo das décadas seguintes, não vive um plano, vive a cidade. Qual o diálogo possível? Qual a rede possível?

A terra é vermelha, o coração também

O traçado se deu sob um céu azul e o branco luminoso da arquitetura. Mas sempre me impressionou o pó vermelho do cerrado. Os carros sujos do pó vermelho, o sítio modernista e a poeira vermelha, que chega às narinas dos ciclistas, empenhados em declarar a vocação da cidade para o pedal.

Brasília é uma colmeia geral. Com direito a abelha-rainha no Alvorada, cidades-satélites inchadas, hierarquias de paletó e gravata. Um deserto pra quem não tem amigos, uma festa quando alguém te apresenta os endereços. Desse movimento pendular – da desolação do setor hoteleiro ao set de música africana no grand monde do lago norte, como tornar a cidade mais convidativa? Mais amigável?

Talvez as pessoas presentes no debate não tivessem uma resposta, mas uma vivência. Um desejo firme, declarado, de experimentar e ocupar a cidade. São generosos e compartilham, com quem chega, a melhor versão de vizinhança.

 Quando o vizinho bate à sua porta (seleção de peças no Cobogó)

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