Só que tô pensando, cumadi Rosa, o tanto que vosmecê fazia nós de bobo (Zé Ritinha)

 

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Hoje, aos 78 anos, mãe de 12 filhos, com planos de fazer “pratos zens pro povo que não quer engordar”, produzindo 500 pães por semana, cumadi Rosa continua aprontando. Naqueles tempos de juventude, ela convencia Zé Ritinha – que trabalhava na roça do pai –  a socar o arroz no pilão (tarefa dela) em troca de um prato de bolinho ou um tanto de doce de leite.

– cês é que andavam mortos de fome (retrucou ao compadre).

Dona Rosa sabe reconhecer um mato que pode virar comida, sabe torrar farinha e fazer açúcar mascavo. Tudo me parece muito natural na fala dessa senhora, deitada na cama para recuperar-se de uma queda. Da infância em Gonçalves, Sul de Minas, à residência na vizinha Paraisópolis, cidade na qual vive até hoje, sempre esteve em comunidade. Lidava com um “mundo de camaradas” na casa do pai, que se reuniam para assistir à segunda televisão que chegou em Gonçalves.

Mais tarde, os padres que passavam por Paraisópolis também não ignoravam o doce de figo, bolachas e bolos. Um chegou a dizer que dona Rosa era a mãe dele, na cidade. Mas quem não deseja essa filiação?

Duzentos e quarenta quilômetros separam a Vila Madalena (SP) de Paraisópolis (MG). Mesmo assim, me dá um alento saber que se eu chegar fora de hora para visitá-la, sempre está disposta a oferecer uma “carninha arrumadinha” (carne na lata, conservada na própria gordura), um pão integral, um biscoito de polvilho. E se ficar chateada, ela levanta o astral comendo um ovo frito. Entrega Guta, filha que mora com ela e divide a produção de pães.

 A baforada da vida

Guta nasceu rapidamente. A mãe estava preparando a mamadeira do Zé, o filho mais velho, depois deitou-se, veio uma dor e Guta chegou. Chico, o pai, ainda estava com o armazém aberto. Ele correu e chamou a Dona Julieta, mas essa não quis cortar o cordão “pra não pegar a profissão”. Ele buscou a dona Maria Bodinha, a parteira. Primeira coisa que ela pediu foi uma pinga, era para desinfetar, para remédio – mas a gente diz, aqui em casa, que não teve o sopro e, sim, a baforada da vida! Brinca a filha.

Dona Rosa se orgulha de ter criado os 12 rebentos só com chás caseiros e remédios naturais. Do pai, herdou o conhecimento da homeopatia: belladonna para a febre, camomila para o intestino, além dos chás e outros preparos. Até dona Maria Bodinha ganhava uma batida de agrião com banana para os problemas no pulmão. Já a criançada corria de um prato com chá de alho.  Colocado sobre uma mesa, era passagem obrigatória para um colherada.

Como cresceu a tecnologia, não?

Com onze filhos vivos, crescidos e espalhados por Londres, Brasília, Belo Horizonte, Itajubá, Paraisópolis, São José dos Campos, Campinas e São Paulo, a casa está lá, sempre à espera. Cadeiras na copa, bandeirolas na cozinha, o tempo dessa comunhão mineira.

A mesa é uma vereda pela qual passam, também, toda a vizinhança de agregados. Vazia, a peça que ocupa quase todo o espaço, parece dormir sob o efeito da combinação que Dona Rosa prepara de erva cidreira, erva de São João e erva doce. Agora, os camaradas são reais, virtuais e imaginários. Mas as dimensões daquela casa avarandada, me asseguram que o Brasil tem uma alegria besta que circula na praça com coreto, igreja, correios, escola e  rua-que-vai com  rua-que-vêm. Só fico pensando, dona Rosa, o quanto a senhora continua fazendo a gente de bobo.

Truques da Dona Rosa

Eu que estava com tosse noturna e peito cheio, sem dormir direito, ganhei algumas receitas:

Tosse seca da madrugada: corta o limão, frita no mel, põe água, deixa ferver. Xarope pronto.

Peito cheio: frita a folha da laranjeira na manteiga, acrescenta açúcar, dá uma queimadinha, completa com um copo de leite. “É uma bordoada!”

Sono ruím: corta um maracujá e ferve com semente. Depois é só beber.

 

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Guta serve café para a amiga Clau.

Guta serve café para a amiga Clau

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  1. Aiiii, fiquei com uma saudades de apertar o coração ! D. Rosa querida ! Muitos beijos e muitos abracos apertados !!! Daqui da Su de SP