Nirvana, no silêncio da multidão

 Nirvana, no silêncio da multidãoJunho ficou para trás na linha do tempo do Facebook. O mês das manifestações nos obrigou a “dar-se a conhecer”, “revelar-se”, “estabelecer comunicação” com o desconhecido da passeata e, sobretudo, com as cidades. Entre São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, ouvi os sotaques, compartilhei os sonhos coletivos e os todos os sentidos possíveis para o ato de “manifestar-se”.

Cheguei ao Largo da Batata, no dia 17 de junho, com uma sensação quase infantil: não tinha intimidade em caminhar pelas grandes avenidas paulistanas.

Há dez anos morando na cidade, pela primeira vez nos encontrávamos todos juntos e não era uma comemoração. Entretanto, apesar do ataque sórdido da PM que mobilizou o país, o Largo da Batata trazia uma alegria inesperada.

Ali, formou-se um corpo desengonçado, feliz como criança que engatinha descobrindo planos, indagando se pode avançar. Assim, os paulistanos ocuparam o lugar dos carros. A cidade, em slow motion, parecia recém-inaugurada ao público. Pulamos muito, porque o plano tinha dado certo.

A gente se encontra lá

Na mesma semana, no Rio de Janeiro, participei da grande manifestação na avenida Presidente Vargas que estava apinhada de gente. Sem o aparato tecnológico dos ninjas paulistanos (que me encantou), eu acompanhava o estresse de um casal tentando honrar um encontro marcado na multidão. Qual o carioca que nunca fez isso?

Sim, como em outros carnavais ou em dia de praia lotada, os avatares passavam e tentávamos (de maneira débil) descobrir se a fulana estava lá em frente a tal banca – não tinha erro! Dizia minha amiga. Mas o cortejo estava passando e nada mais dramático naquela cidade do que perder o bonde. Muita gente na rua, lata de cerveja na mão e a dança da memória que me jogava das “Diretas já” para o “Fora Cabral”.

Sem armas

Muito longe dali, reencontro amigos brasilienses em frente ao Palácio do Planalto. Ganhei um generoso espaço num tapete para a meditação coletiva. O protesto reuniu um grupo eclético e me revelou uma vocação singular de Brasília: a contemplação. No Eixo Monumental do Plano Piloto, conhecido como “Eixão”, diante dos três poderes, o vento reforçava a sensação de uma cidade sem muros. Tentei fechar as pálpebras e me concentrar. O plano era emanar good vibrations para o Congresso Nacional.
Não mais posts engajados, gritos e pulos nas avenidas, mas os olhos fechados e o grande silêncio de Brasília. Um vazio tenso me atravessava a pele a cada facho de luz das cameras de emissoras de TV, que registravam a meditação-protesto. Que tipo de comunicação estava a se estabelecer ali? Um mantra não saía da minha cabeça: And I sware that I don’t have a gun. No I don’t have a gun.

 

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