Os pássaros

IMG_1659

O Rio de Janeiro possui vários tipos de encantamento. O medo é um deles. Desde criança , olhava para a favela com um rabo de olho. A favela que havia perto de casa chamava-se morro do Urubu – aves que se alimentam de carne em putrefação. Cada um vive o Hitchcock que pode, essa era a minha versão carioca de “Os pássaros”. Eles estavam lá, no Urubu. Ora mais silenciosos, ora violentamente barulhentos.

Depois, me acompanharam pela vida adulta, no morro de Santa Teresa. Ouvia o grito das facções, nos anos 90. Podia contar até dez e, no silêncio da madrugada, urubus atacavam com AR15 na disputa entre o Falete e a Mineira. Mas nada se comparava ao medo de errar o caminho e cair no morro do Alemão.

Medo de errar, medo de acertar o caminho. O Alemão sempre esteve na minha mira e, quando pude, fui içado pelo teleférico da Supervia, da estação de Bonsucesso para não mais o morro e sim o Complexo do Alemão. Suspenso, curioso, fui catapultado para as vielas do morro da Alvorada, numa redenção de lembranças suburbanas bem familiares: gente batendo na “porta dos outros” sem telefonar antes. Vizinhança que sabe que você está dormindo e que vai te acordar numa boa.

As casas são sempre muito escuras, coladas como frames de um longa-metragem. Mas o quintal também é a rua, o roteiro, a rubrica. Ali, numa linha contínua, circulam as histórias que permeiam o diálogo do tráfico carioca com as UPPs. Estamos muito longe da “pista” e a narrativa é construída com outros códigos. Música alta, cultos evangélicos, circulação intensa de gente, lixo exposto, carros novos, crianças e velhos, vira-latas e a vista aérea, deslumbrante do Maciço da Tijuca. Marcas de bala no concreto, como hieróglifos. Leis escritas de outro jeito.

O complexo do Alemão (que na verdade era um polonês que lá chegou décadas atrás) lida com uma exposição que esconde os maiores segredos. Todos falam de tudo, num telefone sem fio que como diria o Velho Guerreiro “é para confundir, e não para esclarecer’.

Sedução à queima-roupa
Biscoitos, doces e pipas nas vendas improvisadas. Suco de caju ou maracujá bem doce, joelho misto, pudim de pão, maionese, farofa, macarrão, feijão preto, frango à milanesa. Sete reais a refeição. A padaria é um ponto de encontro para corações nada pacificados. Meus olhos estão inquietos também. PMs almoçam com armas de grosso calibre e colete à prova de balas, enquanto moças almoçam com a euforia de um sábado cheio de planos.

Desço as vielas, atravesso por sob pedaços de laje, cruzo alguns largos, alguns avarandados, porque não sei voar. Mas o encantamento é crescente. Não, não pertenço, demagogicamente, ao lugar. Não é a minha gente, mas é o meu Rio. Portanto, é a minha gente. Não quero perdê-los quando acessar a “pista” como se o encantamento acabasse e os urubus impedissem o acesso.

O link está feito. Amigos do Alemão no Face. Compro uma camiseta na qual está escrito: Favela faço parte dela.

Uma kombi tipo lotação passa e pergunta para onde vamos. Vazia, suja, sem lanterna, ela dispara, prometendo ir para onde a gente for.

 

Deixe uma resposta