Vento nordeste

A praia de Beberibe nunca habitou minhas fantasias paradisíacas. Pura ignorância. O litoral norte de Fortaleza, no inverno, oferece areias desertas, caminhadas contemplativas e um banho de mar genoroso com o vento do nordeste. O II encontro de La Nacion Pachamama se deu nesse lugar.

Para um sujeito que mora na cidade de São Paulo, aterrissar entre ameríndios, africanos e devotos da mística andina e se integrar às danças circulares, requer uma dose de perdição nata – trevas e luz na mesma mamadeira.

II Encontro de la nacion pachamama

Pacha mama ou Pachamama, do quíchua Pacha, “universo”, “mundo”, ”tempo, “lugar” e mama, “mãe”, “mãe terra”. A presença constante do mar, do vento, da luz natural, promoveu um estado de meditação e conexão com a mãe terra.

Pacha significa originariamente “tempo”, na língua kolla. Tempo que cura as maiores dores, tal como extingue as alegrias mais intensas. Pacha que sustentou a harmonia entre um público tão eclético. Das jovens sulistas da mística andina ao mais profissional dos palestrantes, viveu-se um tempo neutro.

Propriedades da raiz

Entre os Pachamama, estavam convidados articulados: Juan Ramos Mamamni do Ministério do Meio Ambiente e das Águas da Bolívia, Bas’llele Malomalo (congolês especializado na diáspora Africana) e Cornélius Ezeokeke, nigeriano enredado pelo narcotráfico no Brasil. Mas foi um baiano que mexeu com a química da roda: Norval Cruz. Ele introduziu uma dinâmica capaz de revelar como o “lento é também belo, o lento é lindo, o lento é profundamente intenso.”
Lentamente, amassamos inhame num pilão manuseado por cada um dos 130 integrantes da roda, até que de sólido ficasse pastoso, acrescido de azeite e pimenta, e alimentasse a todos com a força do próprio grupo.
Entre a rigidez dos meus pensamentos mais paranóicos sobre higiene e o sabor daquela pasta, ficou a experiência.
Dançamos e firmamos o ponto lentamente. Lembrei da Umbanda, dos quilombos, rodopiei num tempo analógico, quase sólido, cantando algo que não sabia, que não era meu, que peguei emprestado pra me sentir um Pachamama (só um pouquinho).

eu só existo porque nós existimos

II Encontro de la nacion pachamama - pessoas

Esse é pressuposto da ética Ubuntu que vem de duas línguas do povo banto (zulu e xhosa) que habita o território da República da África do Sul. O Ubuntu é o elemento central da filosofia africana, que concebe o mundo como uma teia de relações entre o divino, a comunidade e a natureza. Segundo, Bas’llele Malomalo, esse pensamento é vivenciado por todos os povos da África negra tradicional e é traduzido em todas as suas línguas – a cosmovisão africana.
A cosmovisão (africana, andina) trouxe também uma espécie de redenção ao grupo. Não transcendi, mas não vacilei em atuar como canal de passagem para a simulação “do parto dos iniciantes” na mística andina, colaborei com vários abraços coletivos e aceitei o desafio do colega do Congo para me jogar da percussão Africana. Rodei muito, quiquei muito, pra firmar a terra debaixo dos pés e pra sacudir o concreto da cabeça paulistana.

Cadê a mãe terra paulistana?

Acho que se a gente dança por dentro, a gente sacode os pensamentos. Para o meu amigo, Curupira, um paranaense , de 30 anos – que substituiu a frequência 12:60 que é uma frequência articifical do tempo, produzida pelo calendário Gregoriano, pela frequência natural 13:20, que inclui 13 luas de 28 dias, do calendário Maia – a resposta é a sintonia com a natureza.
Ele se despediu desse papo avisando que seguiria para uma comunidade em Canoa Quebrada, sempre levando consigo o ofício da bioconstrução.
Expansivo tipo “peito aberto” colocou:
“para nós, este chamado está enraizado na cura da nossa conexão Gaia; ele nos fala sobre viver a vida plenamente, sobre despertar para o AGORA; sobre nos abrirmos e assumirmos a responsabilidade pela nossa própria mudança e a mudança do planeta”.

II Encontro de la nacion pachamama - praia

Sob o céu de Beberibe, o arco-íris parecia estar ao lado de Curupira. Mas eu, como um falso paulistano, sei que tem muita gente atrás desses chamados pelas comunidades de São Paulo. E nós vamos atrás deles.

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