Iquiririm, o domingo e a banda

Grupo participante

É preciso haver equilíbrio entre a água que perdemos e a água que repomos. Mas e se o corpo for a cidade de São Paulo?


A experiência de acordar numa manhã fria de domingo para se juntar a um grupo, numa praça no Butantã, exigiu mais que curiosidade, demandou engajamento. Pensei nas figuras que coordenam o Instituto Harmonia (Luiz de Campos Jr e José Bueno) e que se articulam para trazer à luz os rios desaparecidos da cidade de São Paulo. Pensei na proposta de reunir pais e filhos com disposição para encontrar a nascente de um rio, o Iquiririm, em pleno asfalto.
Esse rio, o Butantã, os fundos da USP, não fizeram parte da minha infância carioca, mas quem disse que a minha infância acabou?
A curiosidade em investigar o terreno nos proporcionou uma aula a céu aberto pelas praças, ruas e muros do Butantã. Um olhar possível quando, a despeito da presença dos carros em São Paulo, se faz o trajeto a pé.
Abrir os olhos e perceber a paisagem, algo tão automático para as crianças, foi um exercício custoso para quem já possui o olhar pragmático da vida adulta. Entender a topografia para localizar onde se situa uma nascente foi uma boa provocação.

“A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu”.
Nascente do Rio Iquirim

Seguimos rumo ao encontro do asfalto com a água cristalina. Sim, existe essa delicadeza em SP. Ela brota numa curva generosa que abriga um jardim-sobrevivente, no muro que protege os fundos da Universidade de São Paulo.
O Iquiririm nasce ali. Palavra da língua Tupi que significa, sossego, calado. Como a maioria dos rios paulistanos, ele segue escondido, canalizado, quase clandestino. Queríamos ouví-lo, achá-lo, para reintegrá-lo ao corpo da própria cidade.
Tudo azul, seu delegado?
E nós somos parte desse corpo também. As crianças acompanharam o curso das águas e demarcaram o trajeto aplicando em tinta azul o nome Iquiririm. Curiosas, se aproximaram, se agacharam, passaram a mão na água limpa que brotava no chão. Pularam o muro da delegacia do bairro para continuarem brincando com o Iquiririm na divisa com o Instituto Butantã. Várias gerações se encontrando na rua para garantir a presença do rio.
Lembrei, ainda, do gesto mágico de desenhar o sol na areia da praia para que ele apareça no céu. Mais uma vez, pintamos o nome do iquiririm como desejo que uma via alternativa aflore e garanta vida longa para os rios silenciosamente escondidos sob o asfalto da cidade.
Sim, o rio, o Butantã, os fundos da USP, passaram a fazer parte da minha infância solar.

 

 

 

 

Deixe uma resposta