#viresuacidade

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Danilo Salustiano, 10, o leitor mais assíduo da Biblioteca Temática Direitos Humanos Maria Firmina dos Reis, Cidade Tiradentes, SP. Foto Marcelo Carnevale

Olhar a cidade de São Paulo como uma vizinhança é libertador. Combina com a redução da velocidade nas marginais, com as ciclovias, com o comércio de rua, com frequentar espaços públicos ou visitar bibliotecas.

A vizinhança, como opção de estar e viver a cidade, é uma experiência que vez por outra coloca em xeque as nossas certezas, expõe a nossa vulnerabilidade e aponta novos desejos. Mas que possibilidades seriam essas? Uma São Paulo das delicadezas, das surpresas e da cooperação desinteressada? Sim.

A baixa velocidade nos devolve o fracasso da cidade poderosa, revela o colapso da fantasia fast que num giro alucinante fez o neoliberalismo passar por cima da gente e dar a marcha à ré, três vezes.

São Paulo no tempo natural das coisas é uma cidade muito mal acabada. Fantasia que não convence, por mais que prometa um pouco de efeito para não prestarmos atenção. A virada está nesse ponto: queremos prestar atenção.

Corremos muito nas últimas décadas para alcançarmos o podium da meritocracia, mas o troféu é jeca: o pastiche do progresso poluído, impessoal e mentiroso diante da seca do Sistema Cantareira e de toda a invisibilidade dos pobres e novos imigrantes.

Continuamos colonialistas, separados pelo mesmo domínio classista, sem nenhum avanço nas relações de convivência. O miseráveis que não são mais miseráveis que continuem à margem da cidade, assim como os bolivianos, os nóias, os africanos e toda a população carente.

A virada nos revela: queremos essa gente na vizinhança

Acolher a diferença na base da amizade traz esse convite: resgatar o direito ao convívio. Faremos encontros com três, cinco, cinquenta pessoas para celebrar a vida em comunidade.

Queremos comemorar esse tempo lento, que nos permite olhar nos olhos dos outros e sorrir quando nos flagramos confiantes, acompanhados de pessoas desconhecidas que compartilham a cidade.

Levará mais tempo para que a roda abrace pessoas que vivem fora das rodas estabelecidas, mas não há mais como retrocedermos.

O que pode parecer banal é carregado de verdades: somos menos medíocres quando toleramos diferenças de todos os tipos, nos sentimos mais seguros quando existem pessoas ocupando as calçadas e, sobretudo, rejuvenescemos quando desejamos a cidade na qual escolhemos viver.

O amor por São Paulo está explícito e ele é tão legítimo como a presença de todos que estão na condição transitória de ocupação da cidade – nós mesmos.

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Necromancia, as revelações de Maria Alice Vergueiro

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Foto Fábio Furtado

Estava tudo lá: uma melodia acolhedora para que de alguma maneira o futuro soasse doce como uma pá de cal.

Um espetáculo sem cortinas cerradas tem um encaixe misterioso para abrir a cena. Qual seria o tempo da passagem? Como seria? Quem perceberia a transição?

O velório simulado de Maria Alice Vergueiro diluiu o limite da atuação. Todos fomos atores a contar o compasso das horas que nos entregariam seu cadáver, mesmo que por um instante ou não.

O que os mais deslumbrados esqueceram é que naquele corpo aparentemente interditado existe uma justeza entre a atriz e seu papel. Falsamente disciplinada no sufocamento do Mal de Parkinson, já há muito tempo lida com o emparedamento paulatino, gotejante, quase eterno.

A mulher do futuro se mantém no fio do desejo

A tão anunciada simulação da despedida final nos distraiu diante da força do cavalo, numa peça intitulada: Why the horse? Dramaturgia de Fábio Furtado.

Junto com o elenco do grupo Pândega de Teatro, a cadeirante andou, a velha de 80 anos pariu uma malabarista e beijou e desejou todos os beijos da platéia. Restou engolir o drama da doença terminal, mesmo que tenha saído um arroto desavisado com gosto de self.

Por que o futuro que evocamos, diante da sua atuação, é a nossa própria morte. Essa é a advinhação, o mistério que ela nos adianta.

Uma atriz generosa e didática que sob o véu fúnebre simulou um compasso de espera, expressou a nossa insegurança com a própria fragilidade. Como não lembrar de outros velórios? Como não rememorar o sentimento do que não tem volta?

Maria Alice Vergueiro, a condessa canibal, devora o Parkinson e a linha do tempo. Vive outra coisa, uma sensualidade épica que nos convida para a morte criativa e o convite é bom, porque é um convite amoroso. Sim, ela continua viva, a peça volta a cartaz em breve. Sim, Maria é a vizinha do mês.

 

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Foto Fábio Furtado

 

 

 

 

Faça parte dessa roda

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foto Guilherme Lima

A vizinhança na roda se concretiza num desenho universal como as rodas de ciranda, as rodas de samba, as rodas da tribo. Na Livraria da Vila, ela reforça a ideia de aproximar pessoas dispostas a compartilhar um naco do precioso tempo livre paulistano.

O que é?

A VIZINHANÇA NA RODA, LIVRARIA DA VILA

Participe da roda de conversa, mediada por terapeutas comunitários. Nosso objetivo é reunir pessoas, que a princípio não se conhecem, em torno do elo comum que as une e permite desenvolver uma dinâmica de trocas e partilhas que é a condição humana.Você é nosso convidado.

 

Quando?

Quinta-feira, 26 de Março

19h30 às 21h30

Rua Fradique Countinho, 893  Vila Madalena

 

Na última roda, a vizinhança se identificou com o depoimento de Inês Mendonça. Transcrito, abaixo, do blog da jornalista: da cidade, das coisas.

A partir daquele momento, vivemos uma roda de dragões.

Marcelo Carnevale

Nua

Quinta-feira à noite, no pequeno auditório de uma livraria, estou em uma roda com algumas pessoas conhecidas e várias que vejo pela primeira vez, mais homens do que mulheres. Já aconteceram alguns passos do que viemos fazer aqui e devo falar sobre a questão que coloquei: dificuldade em colocar afeto na minha vida. Não imaginava ter que falar, é claro, achava que outra questão fosse ser escolhida. Como a vida parece ser o que acontece quando não controlamos nada, decido viver a experiência como quem segura a respiração e se joga do penhasco torcendo para entrar com jeito no mar lá embaixo. Há alguns gestos de cuidado que devemos ter uns com os outros. Só podemos falar em primeira pessoa, nada de usar você ou a gente. Não podemos interromper o outro. As pessoas podem entrar ou sair, se quiserem. E não se contam segredos, nada que precise ser guardado por alguém.

Falo de uma reunião, conto como o que eu achava ter sido apenas uma fala incisiva foi percebido por alguém que ouvia de longe como nervosismo. Isso fez com que me desse conta de como uso raiva e  agressividade. Me perguntam que bicho eu seria. Um dragão, claro. Assustadores, mas também magníficos em seu poder de manter os outros calados, em neutralizar a agressão antes mesmo que ela aconteça, capazes de manter todos à distância. Alguém pergunta se tenho orgulho do dragão. Sim, tenho, adoro o dragão. Sei que isso torna difícil mantê-lo afastado. Descrevo um pouco minha família: filha única até quase quatro anos, duas irmãs em menos de um ano. Conto sentir que me tornei a filha do meu pai nesse momento, minhas irmãs ficaram com a mãe. Quando me perguntam o que sentia, na época, respondo sem pensar: solidão.

É uma experiência intensa responder a essas perguntas em público mas não sinto vergonha. Há um silêncio, uma escuta no ar. Querem saber que bicho eu gostaria de ser, no lugar do dragão. Um gato. Eles fazem o que querem, vão com as pessoas de que gostam, e não há nada que possa fazê-los ser o que não são. Eles sabem pedir carinho e afeto, melhor do que um cão. Em certo momento A. e M. cantam “sei que você fez os seus castelos, e sonhou ser salva do dragão, desilusão meu bem, quando acordou estava sem ninguém, sozinha.”

Sinto uma imensa vontade de chorar, a música é perfeita, mas ainda não consigo ser tão eu mesma assim, e o choro não sai. Vejo pelo canto do olho alguém enxugar uma lágrima. Depois outros falam. Sobre um amor que também tinha um dragão. Sobre um amor ter mandado o dragão embora. Sobre ter abandonado o dragão para ter um amor. O amor aparece nas falas.

Para terminar, as duas pessoas que conduziram a conversa agradecem a experiência com carinho e desfazemos a roda. Os outros brincam comigo sobre o dragão, rimos. O amigo me olha entre um pouco apreensivo e assustado, não sei se com minha entrega inesperada, ou com o que falei. Mas não é hora para entender isso, há muitas outras coisas para processar.

Lembro de um filme que assisti há uns meses, zapeando na TV: As Sessões. Uma cena me marcou. A personagem de Helen Hunt vai se converter ao judaísmo e antes disso precisa tomar um banho ritual nua, na frente de uma mulher ligada à sinagoga. Ela desce os degraus da piscina e entra na água com absoluta leveza, sem nenhum pudor pela exposição. A outra personagem comenta que as mulheres jovens sempre têm dificuldade naquele momento. Algo assim: é preciso coragem para se mostrar e dizer este é o corpo que Deus me deu. Esta sou eu, diz a cena. E eu também digo: esta sou eu, inteira, nua.

Inês Mendonça

 

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foto Guilherme Lima