O recomeço

 

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foto Marcelo Carnevale

A foto do meu novo registro geral – que substituiu o documento antigo e emitido há muito tempo no Rio de Janeiro – é um flagrante da minha inquietação paulistana: o que constitui a nossa identidade? Qual o lugar do sujeito desenraizado? A qual vizinhança pertencemos?

Esse espanto garante um exercício constante de olhar os detalhes da cena urbana, elegendo o que nos é familiar e o que nos ameaça e amedronta.

O medo paulistano da convivência com o que é estranho não mora em mim, não me paralisa. Ao contrário, me possibilita o movimento e algumas descobertas, mesmo que a cidade se agigante e que a gente desapareça nela.

Não se trata de um simples deslocamento pelo espaço, mas de uma postura que me permite andar por aí, entrar num beco, descobrir uma escada de acesso. A ideia é a mesma: encarar a topografia paulistana que sobe e desce na maré de concreto. Andar e conquistar cada topo em busca de alguma visão não consolidada sobre as coisas. O que pulsa?

Pergunta que lateja na minha cabeça e que, sem resposta fácil, me obriga a circular. Amar São Paulo exige outro tipo de disponibilidade para encontrar o amor.

O fluxo e a Luz

Nessa utopia, o desejo me colocou diante da região da Luz. Lá, mora uma verdade sobre o que produzimos coletivamente: a miséria humana.

Atravessar o fluxo da Cracolândia é um caminho sem volta em sentidos muito distintos: da tomada de consciência do que somos capazes de produzir e ignorar como sociedade, da chaga que purga o inumano em nós como ferida aberta no coração histórico da cidade.

Minha identidade paulistana sofreu esse ajuste, que permitiu a meus olhos vasculhar os detalhes do fluxo sob a teia de aranha do nylon suspenso a apenas um metro e meio de altura, coberto por plásticos capazes de abrigar o que jamais tinha visto antes: um viveiro de corpos magnetizados pelo crack.

Centenas de homens e mulheres numa convulsão do que não cabe, do que não tem mérito, do que não conduz e nem é conduzido e que é nosso, também, como cidadãos de São Paulo.

Bicheira ativa numa concentração de indigentes, com suas tramas, subtramas, violências subreptícias, numa frequência de desfiguração e de desenraizamento d’alma. Monitorada por uma aliança do poder público, difusa na poeira de elementos químicos. Ardendo aos nossos olhos do meio-dia.

Ali, cabe a mais dura pergunta já feita por Primo Levi sobre o holocausto: é isso um homem?

Sem resposta, sigo. Não estou sozinho nessa incursão pela região da Luz, existe muita gente disposta nessa vizinhança. A começar pelo meu amigo Paulo Farias no Teatro do Pessoal do Faroeste e os inúmeros profissionais da saúde, numa rotina de trabalho inimaginável (Programa Recomeço e Projeto de braços abertos).

Gente empenhada a esperar pelo primeiro sinal que indique o desejo de mudança – como meu xará o Dr.Marcelo Ribeiro, diretor do Centro de Referência de Álcool,Tabaco e outras Drogas (CRATOD), que generosamente me guiou nesse cenário labiríntico e invisível para a maioria dos paulistanos.

O desejo de ruptura com o consumo do crack demanda um esforço muito brutal do usuário. Não menos que o nosso para rompermos com a inércia e detonarmos a hipocrisia que nos impede de contribuir de fato pelo exercício da cidadania.

Estamos todos interligados sob a mesma teia que corta o céu de São Paulo. O risco que estica a corda na rua Helvétia, na Luz, é o mesmo que tensiona a respiração da família na sala de estar da classe média. Somos os mesmos, mas a solidariedade é um aprendizado constante. O convite ao recomeço é amplo, geral e irrestrito.

Por coincidência, meu RG paulistano ficou pronto no Poupa Tempo da Luz, nesse mesmo dia da visita à Cracolândia. Saí do atendimento com a sensação de que a cidade me acolhe e me oferece as condições e o tempo para ficar e agir. Obrigado São Paulo. Obrigado a vocês pelo apoio ao projeto A vizinhança.

Feliz Natal

 

 

 

 

 

 

 

Retrato de rua

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Felipe escuta Heidi na rua Maranhão foto Marcelo Carnevale

Escutar, escutar e escutar. A convite do nosso blog em parceria com o Istituto Europeo di Design (IED), o jovem poeta Felipe Blanco topou ficar diante da sua máquina de escrever e aguardar os moradores e visitantes da rua Maranhão manifestarem curiosidade. Um domingo especial com boa música, feira de artesanato e várias outras atividades promovidas pelo IED/São Paulo.

Quem venceu a timidez e se sentou na banca com o poeta, compartilhou memórias afetivas da rua, do bairro, metamorfoseadas (na hora) em poemas por Felipe.

Manifestação liberada de temporalidade, de contratos sociais, de posicionamentos políticos e carregada de afetos, de flagrantes corriqueiros que superpostos compõem camadas afetivas como um mil folhas da vida urbana.

A experiência revela um outro tipo de passeio: são as palavras dos habitantes que retratam as impressões registradas e que oferecem várias possibilidades de se viver a cidade.

 

A VIZINHANÇA

Casa é aonde meu coração está/

Pulso pela vida

multifacetada/

deixo entrar meu lírico

eu sou em mim

o meu universo onírico/

atrás do espelho da existência

se esconde o bairro com nomes de

norte/

domingos se acumulam na minha

memória,

aonde ando sempre

pelo lado

amarelo

do

dia/

Heidi

 

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Daniel, 20 anos

A VIZINHANÇA

 

desconfio que seja na rua

aonde piso

que vejo a infância dos meus dias/

desde muito cedo, de quando me furaram

a primeira bola,

de quando todo pimpão

caí da bicicleta

e pensei ter perdido

meu dedo/

foi aqui sim, na rua maranhão,

que de menino

vi os prédios todos

esticando meu pescoço

e soube

da minha paixão arquitetônica/

hoje sou menino ainda mas levo debaixo

do braço minha régua T.

desconfio e me fio

que é na rua sim

que todos os meus sonhos

encontram os ecos das pegadas

que ainda nem dei ///

Daniel

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Ana Gabriela, 19 anos

A VIZINHANÇA

A vida não é underground,

A vida é playground/

Fazer da cidade o próprio parque de di-

versões/

corrimão é tobogã,

calçada é palco,

o chão é meu amigo/

o cenário de concreto

é lúdico/

abstraio a dialética de tudo:

sorrio para o sol,

sou namorada da lua.

Ana Gabriela

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Wellington, 18 anos

A VIZINHANÇA

 

A vida é uma barra

de ginástica

na praça

buenos aires/

não é preciso nariz vermelho

para saber que

sou eu ali,

sorrindo para o mundo

de dentro do espelho/

das coisas que eu não

sei, tenho absoluta certeza/

Wellington

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Thaís, 15 anos

 

A VIZINHANÇA

O CORAÇÃO NÃO BATE?

Não, coração late/

E a esperança não é a última

a morrer,

o último a morrer é o herói

que não teve tempo de correr/

quer saber,

a vida é um teatro, um único ato,

o intervalo entre inspirar

e expirar/

sem plateia sem palco,

sou eu quem inicia as vaias,

sou eu quem bato palmas/

sou atriz, diretora, contrarregra e cortina:

e se eu quero cantar,

canto/

Thaís

 

 

 

 

mil vizinhos, hoje

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Casa 68 foto Clarissa Teixeira Santos

Nosso projeto chega a marca dos mil simpatizantes. Os primeiros como leitores do blog, outros como frequentadores dos eventos que reuniram amigos no Rio de Janeiro, em Brasília e em São Paulo.

Depois, muitos se juntaram nas rodas de conversa e nos encontros das agendas sustentáveis que compartilham o desejo por ambientes mais humanos.

Meu agradecimento especial aos apoiadores do projeto: Casa das Caldeiras, High Pass, Livraria da Vila. Empresas que formam o elo composto também por bairros, aldeias e cidades.

A perspectiva de uma vizinhança mais atuante se dá nessa abertura dos produtores culturais, executivos, líderes indígenas, educadores, vizinhos de bairro, palhaços, médicos, hortelões, poetas, familiares, terapeutas comunitários, que contribuem diretamente para uma partilha do que é comum a todos: a generosidade.

No planalto central, o coletivo brasiliense Casa 68 é nosso novo pólo. Tivemos uma noite muito especial, na última terça-feira, com a contribuição expressiva para essa rede que se forma com o objetivo de repensar a vocação do espaço público.

Sabemos que não é fácil romper com a dinâmica que nos captura para o excesso de trabalho e, consequentemente, para o recolhimento egoísta. Se liberar dessa lógica que inibe o direito ao tempo livre, transforma o outro numa ameaça e o desconhecido numa chatice, requer fôlego. Exige disposição para vencer o trânsito, derrubar a agenda, chegar no ambiente e dizer: presente!

Mas a pura delícia é compartilhar um tempo sem promessa de futuro, sem solução para nada, liberado para a gente viver o improviso – como se não fosse essa a única condição.

Muito obrigado pelas mil presenças em A vizinhança.

Marcelo Carnevale