São Paulo e a dimensão do afeto

Edifício Martinelli foto Marcelo Carnevale

Foi necessário um bom tempo para que eu entendesse e descartasse algo que é atraente na dinâmica paulistana: a ideia do work hard, play hard. Um pensamento que induz à veneração ao excesso de trabalho, produzindo uma moral que condena quem despende tempo cuidando do outro e da cidade.

Tipo de excitação alienante destinada principalmente ao consumo e a manutenção de um código de conduta descolado dos direitos, dos deveres e da diversidade. Modelo de vida baseado num roteiro frenético que deixa tudo restrito às ambições individuais, como se a ideia de foco fosse um canudo que aspirasse qualquer poeira capaz de alimentar a própria meta. Caricatura do sonho Americano – o sonho dos outros.

São Paulo, a cidade na qual pais e mães estacionam em fila dupla para os filhos não andarem meia quadra até o colégio ou lugar das pessoas que saem em disparada pelas estações de metrô, pressionadas pelo próximo compromisso ou pelas distâncias entre a casa e o destino imediato. Todos sempre ameaçados pelo desconhecido que é a própria cidade.

Quando inventa-se a possibilidade de dobrar a esquina, optar pela deriva e livrar-se dessa vida estreita, descobre-se um tempo necessário para alcançar algo mais parecido com uma calmaria, um limiar. Uma brecha para deixar aflorar uma sensibilidade que nos faz solidários aos que vagam pelas ruas e escolheram a cidade como abrigo (eles têm muito a nos ensinar).

Sair dessa agenda positivista que nega o espaço público como convite à coexistência é naturalmente identificar-se com as minorias, os excluídos da roda, como escreveu Murilo Mendes:

(…) As cabeças sem rodas, os desrodados, os deserdados das rodas, os antipoetas sem rodas, os operadores das rodas infernais dos carros bélicos, a roda de Íxion, as rodas antirodas dos homens sem imaginação, os marginais das rodas, os conspiradores das rodas, os reis das antirodas, os assassinos das rodas, os expulsos das rodas, os díscolos das rodas, os inimigos da roda da história (…) 

CACOS DA CRACO

 

Bairro da Luz foto Marcelo Carnevale

Eu e dois amigos estávamos num bar em frente ao Teatro de Contêiners Mungunzá, numa encruzilhada na região da Luz, próximo a uma montanha de lixo largado numa das vias que compõe o traçado: a rua dos Gusmões e que abriga uma coleta de recicláveis aberta vinte e quarto horas.

A conversa avançava numa espécie de percepção que, sim, estávamos diante de um tipo de fim, estupefatos com os primeiros passos da nova gestão municipal e com as perdas consistentes na agenda social, confirmadas nos últimos meses pelas investidas policiais que apostam no confronto, na força coercitiva, na opressão.

O sol invadia o salão do bar e, num momento de comoção, li Clarice Lispector:

“(…) E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.”

Nada sobrou do copo de cerveja que deixei espatifar no chão ao tentar apoiá-lo na mesa do boteco. Ali, um presságio: a desistência de insistir nas queixas sobre as mudanças que ocorreram na região. Aqueles estilhaços eram importantes.

A dona bar chegou muito solícita e de forma cabal, assegurou: nenhum problema quando o copo quebra, problema é quando não quebra.

Deveria ter colocado todo aquele vidro no bolso do meu paletó para que, a cada enfiada de mão, eu acordasse das queixas mornas diante da brutalidade que assistimos ao verificarmos o desmanche dos avanços sociais, conquistados nas últimas duas décadas.

Cacos de vidro como um souvenir da desgraça que abate a todos nós, os superintegrados à cidade, incapazes de agir diante de tamanha violência autorizada e defendida como política pública contra os homens, as mulheres e as crianças da região central da Luz e das periferias da cidade.

Os usuários de crack se esvaindo sem assistência social, supostamente tratados por uma medicina a favor da internação em massa, como se conduzissem lixo humano que deve ser reciclado ou simplesmente esquecido até desintegrar-se em chorume.

Na cracolândia da região da Luz, a vida é sem rede de proteção e a regra vale para todos: usuários, agentes de saúdes, artistas, ativistas, cidadãos em geral.

A violência é contra todos à medida que não deixa margem de dúvidas de que não há garantias possíveis no jogo de interesses em torno do valor da desapropriação dos terrenos, da gentrificação e do faturamento com a prestação de serviço em larga escala (triagem, assistência, internação) forjada por um senso de urgência.

O desamparo é geral e nos empurra para um simulacro no qual o combate ao tráfico de crack, ali no fluxo, chega a ser hipócrita diante do aparato policial e do que se negocia no baixo volume de drogas naquele local. Mas a narrativa está desenhada em nome da saúde, da segurança dos cidadãos de bem e do desenvolvimento da cidade de São Paulo – a cidade para trabalhadores.

Seguimos sem engolir esse imbróglio do work hard, play hard, dispostos a ouvir, ponderar e refletir com os que defendem o progresso pelo esforço individual, com os que se consideram focados e prontos para o futuro. Seguimos, mas com os cacos no bolso. Outros tempos.

 

 

 

 

O recomeço

 

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foto Marcelo Carnevale

A foto do meu novo registro geral – que substituiu o documento antigo e emitido há muito tempo no Rio de Janeiro – é um flagrante da minha inquietação paulistana: o que constitui a nossa identidade? Qual o lugar do sujeito desenraizado? A qual vizinhança pertencemos?

Esse espanto garante um exercício constante de olhar os detalhes da cena urbana, elegendo o que nos é familiar e o que nos ameaça e amedronta.

O medo paulistano da convivência com o que é estranho não mora em mim, não me paralisa. Ao contrário, me possibilita o movimento e algumas descobertas, mesmo que a cidade se agigante e que a gente desapareça nela.

Não se trata de um simples deslocamento pelo espaço, mas de uma postura que me permite andar por aí, entrar num beco, descobrir uma escada de acesso. A ideia é a mesma: encarar a topografia paulistana que sobe e desce na maré de concreto. Andar e conquistar cada topo em busca de alguma visão não consolidada sobre as coisas. O que pulsa?

Pergunta que lateja na minha cabeça e que, sem resposta fácil, me obriga a circular. Amar São Paulo exige outro tipo de disponibilidade para encontrar o amor.

O fluxo e a Luz

Nessa utopia, o desejo me colocou diante da região da Luz. Lá, mora uma verdade sobre o que produzimos coletivamente: a miséria humana.

Atravessar o fluxo da Cracolândia é um caminho sem volta em sentidos muito distintos: da tomada de consciência do que somos capazes de produzir e ignorar como sociedade, da chaga que purga o inumano em nós como ferida aberta no coração histórico da cidade.

Minha identidade paulistana sofreu esse ajuste, que permitiu a meus olhos vasculhar os detalhes do fluxo sob a teia de aranha do nylon suspenso a apenas um metro e meio de altura, coberto por plásticos capazes de abrigar o que jamais tinha visto antes: um viveiro de corpos magnetizados pelo crack.

Centenas de homens e mulheres numa convulsão do que não cabe, do que não tem mérito, do que não conduz e nem é conduzido e que é nosso, também, como cidadãos de São Paulo.

Bicheira ativa numa concentração de indigentes, com suas tramas, subtramas, violências subreptícias, numa frequência de desfiguração e de desenraizamento d’alma. Monitorada por uma aliança do poder público, difusa na poeira de elementos químicos. Ardendo aos nossos olhos do meio-dia.

Ali, cabe a mais dura pergunta já feita por Primo Levi sobre o holocausto: é isso um homem?

Sem resposta, sigo. Não estou sozinho nessa incursão pela região da Luz, existe muita gente disposta nessa vizinhança. A começar pelo meu amigo Paulo Farias no Teatro do Pessoal do Faroeste e os inúmeros profissionais da saúde, numa rotina de trabalho inimaginável (Programa Recomeço e Projeto de braços abertos).

Gente empenhada a esperar pelo primeiro sinal que indique o desejo de mudança – como meu xará o Dr.Marcelo Ribeiro, diretor do Centro de Referência de Álcool,Tabaco e outras Drogas (CRATOD), que generosamente me guiou nesse cenário labiríntico e invisível para a maioria dos paulistanos.

O desejo de ruptura com o consumo do crack demanda um esforço muito brutal do usuário. Não menos que o nosso para rompermos com a inércia e detonarmos a hipocrisia que nos impede de contribuir de fato pelo exercício da cidadania.

Estamos todos interligados sob a mesma teia que corta o céu de São Paulo. O risco que estica a corda na rua Helvétia, na Luz, é o mesmo que tensiona a respiração da família na sala de estar da classe média. Somos os mesmos, mas a solidariedade é um aprendizado constante. O convite ao recomeço é amplo, geral e irrestrito.

Por coincidência, meu RG paulistano ficou pronto no Poupa Tempo da Luz, nesse mesmo dia da visita à Cracolândia. Saí do atendimento com a sensação de que a cidade me acolhe e me oferece as condições e o tempo para ficar e agir. Obrigado São Paulo. Obrigado a vocês pelo apoio ao projeto A vizinhança.

Feliz Natal

 

 

 

 

 

 

 

A criação como trunfo

 

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São Jorge no teatro foto Marcelo Carnevale

Na saída do metrô Luz, em plena Cracolândia, confirmo a direção da rua do Triunfo com três guardas que parecem não entender o que eu falo. Resgato um papel do bolso com o mapa da área. Um deles, o mais solícito, assume uma eficiência de aluno em arguição. Sou eu quem dou a cola. Os policiais gaguejam diante do lugar.

Minha opção é seguir, mesmo sabendo que poderia não ser poupado – eu e o guarda somos atores inseguros. A platéia é sinistra, bruta, sem códigos universais.

Tento me encaixar na movimentação por mais que saiba que muito do que não vejo me espreita e muito do que não sei me atrai. Lá estou, em pleno faroeste, num tiroteio de sensações no qual o desejo nem sempre é o mocinho e o que me excita nem sempre é o bandido.

A porta do teatro estava aberta, eu não a vi

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sede do Pessoal do Faroeste foto Marcelo Carnevale

Acionei a campainha, algo patético diante da boca escancarada que me oferecia uma escada íngreme. Cheguei num patamar intermediário para encontrar o diretor teatral Paulo Faria.

Ele me recebeu com uma gentileza discreta, sabe que o espetáculo lá fora acontece o tempo todo e que o público do Pessoal do Faroeste é formado por quem procura uma cena mais criativa na cidade.

Paulo faz da própria dramaturgia um ponto na rua do Triunfo, 301, na famosa e esquecida Boca do Lixo. Há dois anos, o sobrado funciona como teatro para o Pessoal do Faroeste, companhia que existe há 16 anos.

No térreo, o bar junto com a venda de produtos da Daspu insere o teatro na dinâmica do comércio. Essa estratégia minimiza a linha que separa o dentro do fora, possibilita que alguém se abrigue para tomar uma cerveja e olhe o drama que espalha miséria, delírio e abandono entre os enjeitados que circulam no quadrilátero da Boca.

Para quem está cansado desse clichê, o Pessoal do Faroeste faz outro convite: assistir aos espetáculos que encenam textos teatrais pautados pela arqueologia da própria área. São camadas que se sobrepõem em décadas de abandono, reveladas em histórias incríveis das cercanias da Luz.

Quadrilátero do Pecado, Polígono do Amor ou Boca do Lixo

O caderno com o texto da peça “Homem não entra”, produção de 2013, explica que na década de 1950 o governador Lucas Nogueira Garcez e o  prefeito recém-eleito Jânio Quadros decretaram o fim da zona livre do Bom Retiro. Desalojadas, as prostitutas passaram a ocupar os hotéis baratos próximos das estações ferroviárias Júlio Prestes e Luz.

O traçado da área tem início na rua Mauá, a pouco metros da estação da Luz, e prossegue pela rua dos Protestantes, passando pela rua do Triunfo e chegando a avenida Ipiranga. Continua na famosa esquina com a São João e segue por essa avenida até encontrar a Duque de Caxias. O desenho se fecha novamente na rua Mauá.

Atraídos pelos baixos valores, no final da década de 1950 e meados da década de 1960, a maior parte das distribuidoras de filmes tinha escritório na região, antigo pólo de produção de cinema que lá funcionou até 1990.

A mesma cena com novos atores

Paulo conta que chegou na Boca do Lixo por conta dos predinhos que poderiam virar teatro. Para além do baixo valor imobiliário da região, existe a afinidade que une a dramaturgia do diretor com o cinema. Ele admite que os textos de própria autoria são muito cinematográficos como o “Cine Camaleão: Boca do lixo”, montagem de 2012, que homenageou o ator, cineasta e produtor David Cardoso, o Rei da pornochanchada.

O diretor revela que a aproximação com estudiosos e profissionais do cinema ajudou a reavivar a memória do lugar. Em duas décadas, o pólo produziu centenas de dramas, filmes de faroeste, terror, aventuras, policias e filmes com temas históricos, como o clássico “Independência ou Morte”, de 1972, com Tarcísio Meira no papel de D. Pedro I e Glória Menezes como Marquesa de Santos, um lançamento da Cinedistri.

Muitas gerações foram influenciadas pelo que se passava naquele pedaço. Cinema que exibia uma São Paulo criativa e marginal, mais integrada na sua diversidade do que a cidade atual.

Má educação

São nomes que me recordam os souvernirs da infância (recheada de calendários eróticos, pilhas de revistas e filmes pornô): Sônia Braga, Vera Fisher, Matilde Mastrangi, Nicole Puzzi, Nuno Leal Maia, Claudio Marzo e, obviamente, David Cardoso.

A rua do Triunfo me devolve uma São Paulo imaginária, mais cosmopolita e menos engarrafada. Representada pela ação da câmera com planos e roteiros despretensiosos mas que detonaram meu desejo de conhecer a metrópole cinza e interessante. Como disse Paulo Faria, uma cidade mais marginal, uma cidade mais humana. Eu diria sobretudo experimental.

Quem se limita a acreditar que nessa área encontramos apenas miséria, não olha para o lugar. Eu reencontrei alguns cenários marcantes, reconheci o que o vento soprou na lembrança e me dei conta de que a Boca é coisa nossa. A lição eu sei de cór.

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mapa da área http://oglobo.globo.com/fotos/2007/05/17/mapa_sp_cracolandia_pop.jpg

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rua do Triunfo foto Marcelo Carnevale

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Paulo Faria foto Marcelo Carnevale