mil vizinhos, hoje

12032053_10153721542124312_450620223993556626_n

Casa 68 foto Clarissa Teixeira Santos

Nosso projeto chega a marca dos mil simpatizantes. Os primeiros como leitores do blog, outros como frequentadores dos eventos que reuniram amigos no Rio de Janeiro, em Brasília e em São Paulo.

Depois, muitos se juntaram nas rodas de conversa e nos encontros das agendas sustentáveis que compartilham o desejo por ambientes mais humanos.

Meu agradecimento especial aos apoiadores do projeto: Casa das Caldeiras, High Pass, Livraria da Vila. Empresas que formam o elo composto também por bairros, aldeias e cidades.

A perspectiva de uma vizinhança mais atuante se dá nessa abertura dos produtores culturais, executivos, líderes indígenas, educadores, vizinhos de bairro, palhaços, médicos, hortelões, poetas, familiares, terapeutas comunitários, que contribuem diretamente para uma partilha do que é comum a todos: a generosidade.

No planalto central, o coletivo brasiliense Casa 68 é nosso novo pólo. Tivemos uma noite muito especial, na última terça-feira, com a contribuição expressiva para essa rede que se forma com o objetivo de repensar a vocação do espaço público.

Sabemos que não é fácil romper com a dinâmica que nos captura para o excesso de trabalho e, consequentemente, para o recolhimento egoísta. Se liberar dessa lógica que inibe o direito ao tempo livre, transforma o outro numa ameaça e o desconhecido numa chatice, requer fôlego. Exige disposição para vencer o trânsito, derrubar a agenda, chegar no ambiente e dizer: presente!

Mas a pura delícia é compartilhar um tempo sem promessa de futuro, sem solução para nada, liberado para a gente viver o improviso – como se não fosse essa a única condição.

Muito obrigado pelas mil presenças em A vizinhança.

Marcelo Carnevale

São João: o nordeste incandescente

IMG_0810

Parque do Povo, Campina Grande foto Marcelo Carnevale

As bocas devoram carne de bode, picados, espetinhos de toucinho com farinha que deixam tudo brilhante ao redor do lábios, como parte do encontro natural dos dedos com a língua.

A pele firme, curtida, olhos em brasa. Um povo talhado na seca e que leva um remanso na fala e nos recônditos do peito. Amor no primeiro xote, sem trava e sem perdão, é ajoelhar, rezar para Cícero e se jogar no sertão dessa caatinga.

Esse Brasil do sol a pino, do bronze na mata branca, devolve o poder de fogo dos casais de todos os tipos, numa cadência na qual o prazer é igual no conduzir e no ser conduzido.

Vizinhança de Campina Grande, do Parque do Povo, do forró de pé de serra.

Salve Gonzagão, viva Dominguinhos, viva São João!

IMG_0828

Palhoça de Zé Bezerra, Campina Grande foto Marcelo Carnevale

IMG_0832

Bar do Tenebra de São João, Campina Grande foto Marcelo Carnevale

 

IMG_0833

Bar do Tenebra de São João, Campina Grande foto Marcelo Carnevale

Necromancia, as revelações de Maria Alice Vergueiro

Why_the_horse-1

Foto Fábio Furtado

Estava tudo lá: uma melodia acolhedora para que de alguma maneira o futuro soasse doce como uma pá de cal.

Um espetáculo sem cortinas cerradas tem um encaixe misterioso para abrir a cena. Qual seria o tempo da passagem? Como seria? Quem perceberia a transição?

O velório simulado de Maria Alice Vergueiro diluiu o limite da atuação. Todos fomos atores a contar o compasso das horas que nos entregariam seu cadáver, mesmo que por um instante ou não.

O que os mais deslumbrados esqueceram é que naquele corpo aparentemente interditado existe uma justeza entre a atriz e seu papel. Falsamente disciplinada no sufocamento do Mal de Parkinson, já há muito tempo lida com o emparedamento paulatino, gotejante, quase eterno.

A mulher do futuro se mantém no fio do desejo

A tão anunciada simulação da despedida final nos distraiu diante da força do cavalo, numa peça intitulada: Why the horse? Dramaturgia de Fábio Furtado.

Junto com o elenco do grupo Pândega de Teatro, a cadeirante andou, a velha de 80 anos pariu uma malabarista e beijou e desejou todos os beijos da platéia. Restou engolir o drama da doença terminal, mesmo que tenha saído um arroto desavisado com gosto de self.

Por que o futuro que evocamos, diante da sua atuação, é a nossa própria morte. Essa é a advinhação, o mistério que ela nos adianta.

Uma atriz generosa e didática que sob o véu fúnebre simulou um compasso de espera, expressou a nossa insegurança com a própria fragilidade. Como não lembrar de outros velórios? Como não rememorar o sentimento do que não tem volta?

Maria Alice Vergueiro, a condessa canibal, devora o Parkinson e a linha do tempo. Vive outra coisa, uma sensualidade épica que nos convida para a morte criativa e o convite é bom, porque é um convite amoroso. Sim, ela continua viva, a peça volta a cartaz em breve. Sim, Maria é a vizinha do mês.

 

Why_the_horse-3

Foto Fábio Furtado