Cada dia, um país

"mar paulistano" foto Llano/anonimaprod.com

“mar paulistano” foto Llano/anonimaprod.com

Cheguei em casa depois do chileno que pela hora avançada já estava recolhido no quarto de hóspedes. Essa situação era nova (o hóspede chegar primeiro) e comprovava a experiência positiva acumulada com os visitantes dos mais diferentes países através do Airbnb, o site de hospedagem.

Novidade capaz de inverter a dinâmica do sair para conhecer para a do estar para acolher. O que de alguma maneira demanda mais presença e atenção.

Agora, aquele quarto quando a porta está fechada é uma de linha de fuga. Como se o apartamento da Vila Madalena pudesse acumular a presença mágica de diferentes nações e seus respectivos desembarcados, ali mesmo, por um portal digital.

Na manhã seguinte, lia no sofá da sala quando fui gentilmente saudado por Llano num aperto de mão. Essa empatia confirmava o valor de expressões que caíram em desuso e que soam como frases de efeito: mi casa, su casa ou sinta-se em casa. Mas ali, diante daquela situação, a gentileza era a mais pura verdade.

E tem sido assim, a cada café preparado, a cada música compartilhada e a cada releitura do mapa da cidade de São Paulo que me obriga a olhar a carta e rever a mesma imagem, tal qual olhamos alguém querido no porta-retratos.

Cada dia, uma casa

Os hóspedes devolvem meu olhar sobre detalhes esquecidos reinventando o espaço, redescobrindo os livros, compartilhando a cozinha, mostrando o que não via mais.

Christopher chegou de Los Angeles e deu uma gargalhada no meio da sala, depois se virou e me abraçou. Eu estava tenso com um planejamento de estudos mas para aquele jovem professor de yoga as boa-vindas incluíam abraço e uma música tocada num acordeon. De repente, Califórnia.

A alegria dele se foi com um desencontro amoroso que era o motivo da viagem e que me fez lidar com seu choro, um dia bem cedo. Me parece que pela manhã falamos todos a mesma língua e as diferenças culturais ficam minimizadas nessa pequena infância do dia.

Deixou de presente aulas on line, num circuito de Los Angeles, e devolveu para o apê a prática da yoga. Tão generoso quanto a cachaça de ameixa da Romênia ou a lata de biscoitos de Singapura.

De algum jeito esse exercício do encontro e da despedida me faz sentir menos apegado à casa. O que importa é o acolhimento, não o endereço.

É poder olhar de verdade e também exercitar o estrangeiro em mim mesmo, detonando uma rotina controlada que traz o fastio do medo-esperança do dia, com todo o lixo que aparece nas notícias plantadas pela velha imprensa brasileira.

Meu hóspede de Zhanjiang – que traduziu o nome chinês para Nelson e que me fez descobrir que me chamo 马塞洛 (em chinês simplificado) – partiu dizendo-se meu irmão e acreditei naquela verdade porque me interessa diluir as fronteiras e apostar na solidariedade.
Aprender como lavar louça de outro jeito ou circular pela cidade usando o transporte público em tempo integral. Nada disso tem a ver com globalização, porque o que interessa é a troca cultural, as diferenças postas com gentileza e curiosidade. A singularidade dessas pessoas.

Um filme falado

A casa tem algumas regras: andamos descalços, celebramos a boa mesa e de preferência procuramos falar na língua materna (claro para o Nelson não valeu essa regra). Mas a presença de Guillaume trouxe o francês parisiense e a visita de Ana trouxe Lisboa, os fados, os vinhos e essa cumplicidade da língua portuguesa em diferentes bases melódicas.

Sempre quando chegamos num entendimento, brindamos a configuração possível no mapa mundi da mesa redonda, na rua Girassol. E garanto, o mundo fica mais apetitoso pois inclui o que não sabemos muito bem e, nesse caso, o estranhamento não é uma ameaça mas a nossa condição para rirmos de nós mesmos, das mazelas das nossas cidades, das diferenças e do que descobrimos ser muito parecido.

Llano, o hóspede chileno, registrou o que eu disse quando mostrava a perspectiva da janela: sob esse céu paulistano, nesse horizonte alargado, vejo o mar. Sempre o vejo.

Uma fala de efeito, um lamento português, uma queixa carioca, sobretudo um delírio que Llano captou e que me devolveu como um presente de despedida. A fotografia que revelou meu olhar sobre São Paulo.

Quem é o estrangeiro quando o convite para compartilhar é de verdade?

 

 

O recomeço

 

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foto Marcelo Carnevale

A foto do meu novo registro geral – que substituiu o documento antigo e emitido há muito tempo no Rio de Janeiro – é um flagrante da minha inquietação paulistana: o que constitui a nossa identidade? Qual o lugar do sujeito desenraizado? A qual vizinhança pertencemos?

Esse espanto garante um exercício constante de olhar os detalhes da cena urbana, elegendo o que nos é familiar e o que nos ameaça e amedronta.

O medo paulistano da convivência com o que é estranho não mora em mim, não me paralisa. Ao contrário, me possibilita o movimento e algumas descobertas, mesmo que a cidade se agigante e que a gente desapareça nela.

Não se trata de um simples deslocamento pelo espaço, mas de uma postura que me permite andar por aí, entrar num beco, descobrir uma escada de acesso. A ideia é a mesma: encarar a topografia paulistana que sobe e desce na maré de concreto. Andar e conquistar cada topo em busca de alguma visão não consolidada sobre as coisas. O que pulsa?

Pergunta que lateja na minha cabeça e que, sem resposta fácil, me obriga a circular. Amar São Paulo exige outro tipo de disponibilidade para encontrar o amor.

O fluxo e a Luz

Nessa utopia, o desejo me colocou diante da região da Luz. Lá, mora uma verdade sobre o que produzimos coletivamente: a miséria humana.

Atravessar o fluxo da Cracolândia é um caminho sem volta em sentidos muito distintos: da tomada de consciência do que somos capazes de produzir e ignorar como sociedade, da chaga que purga o inumano em nós como ferida aberta no coração histórico da cidade.

Minha identidade paulistana sofreu esse ajuste, que permitiu a meus olhos vasculhar os detalhes do fluxo sob a teia de aranha do nylon suspenso a apenas um metro e meio de altura, coberto por plásticos capazes de abrigar o que jamais tinha visto antes: um viveiro de corpos magnetizados pelo crack.

Centenas de homens e mulheres numa convulsão do que não cabe, do que não tem mérito, do que não conduz e nem é conduzido e que é nosso, também, como cidadãos de São Paulo.

Bicheira ativa numa concentração de indigentes, com suas tramas, subtramas, violências subreptícias, numa frequência de desfiguração e de desenraizamento d’alma. Monitorada por uma aliança do poder público, difusa na poeira de elementos químicos. Ardendo aos nossos olhos do meio-dia.

Ali, cabe a mais dura pergunta já feita por Primo Levi sobre o holocausto: é isso um homem?

Sem resposta, sigo. Não estou sozinho nessa incursão pela região da Luz, existe muita gente disposta nessa vizinhança. A começar pelo meu amigo Paulo Farias no Teatro do Pessoal do Faroeste e os inúmeros profissionais da saúde, numa rotina de trabalho inimaginável (Programa Recomeço e Projeto de braços abertos).

Gente empenhada a esperar pelo primeiro sinal que indique o desejo de mudança – como meu xará o Dr.Marcelo Ribeiro, diretor do Centro de Referência de Álcool,Tabaco e outras Drogas (CRATOD), que generosamente me guiou nesse cenário labiríntico e invisível para a maioria dos paulistanos.

O desejo de ruptura com o consumo do crack demanda um esforço muito brutal do usuário. Não menos que o nosso para rompermos com a inércia e detonarmos a hipocrisia que nos impede de contribuir de fato pelo exercício da cidadania.

Estamos todos interligados sob a mesma teia que corta o céu de São Paulo. O risco que estica a corda na rua Helvétia, na Luz, é o mesmo que tensiona a respiração da família na sala de estar da classe média. Somos os mesmos, mas a solidariedade é um aprendizado constante. O convite ao recomeço é amplo, geral e irrestrito.

Por coincidência, meu RG paulistano ficou pronto no Poupa Tempo da Luz, nesse mesmo dia da visita à Cracolândia. Saí do atendimento com a sensação de que a cidade me acolhe e me oferece as condições e o tempo para ficar e agir. Obrigado São Paulo. Obrigado a vocês pelo apoio ao projeto A vizinhança.

Feliz Natal

 

 

 

 

 

 

 

Retrato de rua

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Felipe escuta Heidi na rua Maranhão foto Marcelo Carnevale

Escutar, escutar e escutar. A convite do nosso blog em parceria com o Istituto Europeo di Design (IED), o jovem poeta Felipe Blanco topou ficar diante da sua máquina de escrever e aguardar os moradores e visitantes da rua Maranhão manifestarem curiosidade. Um domingo especial com boa música, feira de artesanato e várias outras atividades promovidas pelo IED/São Paulo.

Quem venceu a timidez e se sentou na banca com o poeta, compartilhou memórias afetivas da rua, do bairro, metamorfoseadas (na hora) em poemas por Felipe.

Manifestação liberada de temporalidade, de contratos sociais, de posicionamentos políticos e carregada de afetos, de flagrantes corriqueiros que superpostos compõem camadas afetivas como um mil folhas da vida urbana.

A experiência revela um outro tipo de passeio: são as palavras dos habitantes que retratam as impressões registradas e que oferecem várias possibilidades de se viver a cidade.

 

A VIZINHANÇA

Casa é aonde meu coração está/

Pulso pela vida

multifacetada/

deixo entrar meu lírico

eu sou em mim

o meu universo onírico/

atrás do espelho da existência

se esconde o bairro com nomes de

norte/

domingos se acumulam na minha

memória,

aonde ando sempre

pelo lado

amarelo

do

dia/

Heidi

 

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Daniel, 20 anos

A VIZINHANÇA

 

desconfio que seja na rua

aonde piso

que vejo a infância dos meus dias/

desde muito cedo, de quando me furaram

a primeira bola,

de quando todo pimpão

caí da bicicleta

e pensei ter perdido

meu dedo/

foi aqui sim, na rua maranhão,

que de menino

vi os prédios todos

esticando meu pescoço

e soube

da minha paixão arquitetônica/

hoje sou menino ainda mas levo debaixo

do braço minha régua T.

desconfio e me fio

que é na rua sim

que todos os meus sonhos

encontram os ecos das pegadas

que ainda nem dei ///

Daniel

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Ana Gabriela, 19 anos

A VIZINHANÇA

A vida não é underground,

A vida é playground/

Fazer da cidade o próprio parque de di-

versões/

corrimão é tobogã,

calçada é palco,

o chão é meu amigo/

o cenário de concreto

é lúdico/

abstraio a dialética de tudo:

sorrio para o sol,

sou namorada da lua.

Ana Gabriela

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Wellington, 18 anos

A VIZINHANÇA

 

A vida é uma barra

de ginástica

na praça

buenos aires/

não é preciso nariz vermelho

para saber que

sou eu ali,

sorrindo para o mundo

de dentro do espelho/

das coisas que eu não

sei, tenho absoluta certeza/

Wellington

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Thaís, 15 anos

 

A VIZINHANÇA

O CORAÇÃO NÃO BATE?

Não, coração late/

E a esperança não é a última

a morrer,

o último a morrer é o herói

que não teve tempo de correr/

quer saber,

a vida é um teatro, um único ato,

o intervalo entre inspirar

e expirar/

sem plateia sem palco,

sou eu quem inicia as vaias,

sou eu quem bato palmas/

sou atriz, diretora, contrarregra e cortina:

e se eu quero cantar,

canto/

Thaís