São Paulo nos olhos

Post VNR 26Nov

Esse post é uma carta aberta ou melhor um anúncio, um chamado: procuram-se homens e mulheres que emprestaram seus rostos aos painéis da estação do metrô Sumaré.

Eles ofereceram os próprios olhos, as bocas, as peles para compor a identidade paulistana de milhões de pessoas que transitam pelo espaço público e cujo destino é estar em São Paulo.

Podem se deslocar para uma consulta médica nas Clínicas, para poupar tempo na Luz, para encontrar amigos na Vila Madalena, para descobrir um novo amor na Consolação, para meditar na São Bento ou ainda procurar um emprego na Sé, no Brás, na Paulista ou na República.

Gente que estuda no Butantã, na Vila Mariana, na Liberdade ou frequenta exposição no MASP, na Pinacoteca e no Centro Cultural Banco do Brasil.

Alguns tiveram avós que nadaram no Tietê, muitos falam espanhol ou chinês em casa. Gente que nunca passou por baixo do Minhocão, não. Por medo de se perder e ser assaltado ou por medo de ser confundido com assaltante. Gente que corre e anda de skate na pista interditada do elevado e quer ver o parque sair do papel.

Os que dançam tal qual pirilampos queimando a pedra, os que bufam quando a faixa da esquerda da escada rolante é obstruída por algum desavisado.

Tem também a turma que ouve tanta música numa órbita particular dos fones de ouvido. Qual será a trilha sonora da cidade?

Engana-se quem pensa que nossos amigos da estação Sumaré viraram paisagem. Nos dão a chance de olharmos para eles diariamente, uma presença que vela generosamente por São Paulo.

Sol, chuva, lentidão ou fluxo livre. Sob a tensão dos que enfrentam a polícia militar para defender suas reivindicações ou com a alegria dos que começam a reinventar a cidade com seus coletivos.

Ciclistas, hortelões ou estudantes, todos podem contar com a rede que se forma a partir dos olhares presentes na estação Sumaré. Talvez aqueles rostos adivinhem nossos sonhos, neutralizem angústias, inspirem empenho e dedicação ao próximo.

Podemos brincar de cada vez olhar fixamente para um deles ou de adivinhar os nomes, ainda de imaginar qual destino seguiram, se estão bem, se acham graça nas mudanças pelas quais a cidade tem passado, se sentem saudades de alguma coisa que ficou para trás.

Vale um selfie diante do painel enquanto o trem não vem, vale acreditar que também somos um deles e que podemos emprestar nosso olhar, nosso coração, nossa pele para essa grande vizinhança.

Retrato de rua

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Felipe escuta Heidi na rua Maranhão foto Marcelo Carnevale

Escutar, escutar e escutar. A convite do nosso blog em parceria com o Istituto Europeo di Design (IED), o jovem poeta Felipe Blanco topou ficar diante da sua máquina de escrever e aguardar os moradores e visitantes da rua Maranhão manifestarem curiosidade. Um domingo especial com boa música, feira de artesanato e várias outras atividades promovidas pelo IED/São Paulo.

Quem venceu a timidez e se sentou na banca com o poeta, compartilhou memórias afetivas da rua, do bairro, metamorfoseadas (na hora) em poemas por Felipe.

Manifestação liberada de temporalidade, de contratos sociais, de posicionamentos políticos e carregada de afetos, de flagrantes corriqueiros que superpostos compõem camadas afetivas como um mil folhas da vida urbana.

A experiência revela um outro tipo de passeio: são as palavras dos habitantes que retratam as impressões registradas e que oferecem várias possibilidades de se viver a cidade.

 

A VIZINHANÇA

Casa é aonde meu coração está/

Pulso pela vida

multifacetada/

deixo entrar meu lírico

eu sou em mim

o meu universo onírico/

atrás do espelho da existência

se esconde o bairro com nomes de

norte/

domingos se acumulam na minha

memória,

aonde ando sempre

pelo lado

amarelo

do

dia/

Heidi

 

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Daniel, 20 anos

A VIZINHANÇA

 

desconfio que seja na rua

aonde piso

que vejo a infância dos meus dias/

desde muito cedo, de quando me furaram

a primeira bola,

de quando todo pimpão

caí da bicicleta

e pensei ter perdido

meu dedo/

foi aqui sim, na rua maranhão,

que de menino

vi os prédios todos

esticando meu pescoço

e soube

da minha paixão arquitetônica/

hoje sou menino ainda mas levo debaixo

do braço minha régua T.

desconfio e me fio

que é na rua sim

que todos os meus sonhos

encontram os ecos das pegadas

que ainda nem dei ///

Daniel

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Ana Gabriela, 19 anos

A VIZINHANÇA

A vida não é underground,

A vida é playground/

Fazer da cidade o próprio parque de di-

versões/

corrimão é tobogã,

calçada é palco,

o chão é meu amigo/

o cenário de concreto

é lúdico/

abstraio a dialética de tudo:

sorrio para o sol,

sou namorada da lua.

Ana Gabriela

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Wellington, 18 anos

A VIZINHANÇA

 

A vida é uma barra

de ginástica

na praça

buenos aires/

não é preciso nariz vermelho

para saber que

sou eu ali,

sorrindo para o mundo

de dentro do espelho/

das coisas que eu não

sei, tenho absoluta certeza/

Wellington

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Thaís, 15 anos

 

A VIZINHANÇA

O CORAÇÃO NÃO BATE?

Não, coração late/

E a esperança não é a última

a morrer,

o último a morrer é o herói

que não teve tempo de correr/

quer saber,

a vida é um teatro, um único ato,

o intervalo entre inspirar

e expirar/

sem plateia sem palco,

sou eu quem inicia as vaias,

sou eu quem bato palmas/

sou atriz, diretora, contrarregra e cortina:

e se eu quero cantar,

canto/

Thaís

 

 

 

 

mil vizinhos, hoje

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Casa 68 foto Clarissa Teixeira Santos

Nosso projeto chega a marca dos mil simpatizantes. Os primeiros como leitores do blog, outros como frequentadores dos eventos que reuniram amigos no Rio de Janeiro, em Brasília e em São Paulo.

Depois, muitos se juntaram nas rodas de conversa e nos encontros das agendas sustentáveis que compartilham o desejo por ambientes mais humanos.

Meu agradecimento especial aos apoiadores do projeto: Casa das Caldeiras, High Pass, Livraria da Vila. Empresas que formam o elo composto também por bairros, aldeias e cidades.

A perspectiva de uma vizinhança mais atuante se dá nessa abertura dos produtores culturais, executivos, líderes indígenas, educadores, vizinhos de bairro, palhaços, médicos, hortelões, poetas, familiares, terapeutas comunitários, que contribuem diretamente para uma partilha do que é comum a todos: a generosidade.

No planalto central, o coletivo brasiliense Casa 68 é nosso novo pólo. Tivemos uma noite muito especial, na última terça-feira, com a contribuição expressiva para essa rede que se forma com o objetivo de repensar a vocação do espaço público.

Sabemos que não é fácil romper com a dinâmica que nos captura para o excesso de trabalho e, consequentemente, para o recolhimento egoísta. Se liberar dessa lógica que inibe o direito ao tempo livre, transforma o outro numa ameaça e o desconhecido numa chatice, requer fôlego. Exige disposição para vencer o trânsito, derrubar a agenda, chegar no ambiente e dizer: presente!

Mas a pura delícia é compartilhar um tempo sem promessa de futuro, sem solução para nada, liberado para a gente viver o improviso – como se não fosse essa a única condição.

Muito obrigado pelas mil presenças em A vizinhança.

Marcelo Carnevale