Retrato de rua

IMG_1418

Felipe escuta Heidi na rua Maranhão foto Marcelo Carnevale

Escutar, escutar e escutar. A convite do nosso blog em parceria com o Istituto Europeo di Design (IED), o jovem poeta Felipe Blanco topou ficar diante da sua máquina de escrever e aguardar os moradores e visitantes da rua Maranhão manifestarem curiosidade. Um domingo especial com boa música, feira de artesanato e várias outras atividades promovidas pelo IED/São Paulo.

Quem venceu a timidez e se sentou na banca com o poeta, compartilhou memórias afetivas da rua, do bairro, metamorfoseadas (na hora) em poemas por Felipe.

Manifestação liberada de temporalidade, de contratos sociais, de posicionamentos políticos e carregada de afetos, de flagrantes corriqueiros que superpostos compõem camadas afetivas como um mil folhas da vida urbana.

A experiência revela um outro tipo de passeio: são as palavras dos habitantes que retratam as impressões registradas e que oferecem várias possibilidades de se viver a cidade.

 

A VIZINHANÇA

Casa é aonde meu coração está/

Pulso pela vida

multifacetada/

deixo entrar meu lírico

eu sou em mim

o meu universo onírico/

atrás do espelho da existência

se esconde o bairro com nomes de

norte/

domingos se acumulam na minha

memória,

aonde ando sempre

pelo lado

amarelo

do

dia/

Heidi

 

IMG_1416

Daniel, 20 anos

A VIZINHANÇA

 

desconfio que seja na rua

aonde piso

que vejo a infância dos meus dias/

desde muito cedo, de quando me furaram

a primeira bola,

de quando todo pimpão

caí da bicicleta

e pensei ter perdido

meu dedo/

foi aqui sim, na rua maranhão,

que de menino

vi os prédios todos

esticando meu pescoço

e soube

da minha paixão arquitetônica/

hoje sou menino ainda mas levo debaixo

do braço minha régua T.

desconfio e me fio

que é na rua sim

que todos os meus sonhos

encontram os ecos das pegadas

que ainda nem dei ///

Daniel

IMG_1417

Ana Gabriela, 19 anos

A VIZINHANÇA

A vida não é underground,

A vida é playground/

Fazer da cidade o próprio parque de di-

versões/

corrimão é tobogã,

calçada é palco,

o chão é meu amigo/

o cenário de concreto

é lúdico/

abstraio a dialética de tudo:

sorrio para o sol,

sou namorada da lua.

Ana Gabriela

IMG_1421

Wellington, 18 anos

A VIZINHANÇA

 

A vida é uma barra

de ginástica

na praça

buenos aires/

não é preciso nariz vermelho

para saber que

sou eu ali,

sorrindo para o mundo

de dentro do espelho/

das coisas que eu não

sei, tenho absoluta certeza/

Wellington

IMG_1424

Thaís, 15 anos

 

A VIZINHANÇA

O CORAÇÃO NÃO BATE?

Não, coração late/

E a esperança não é a última

a morrer,

o último a morrer é o herói

que não teve tempo de correr/

quer saber,

a vida é um teatro, um único ato,

o intervalo entre inspirar

e expirar/

sem plateia sem palco,

sou eu quem inicia as vaias,

sou eu quem bato palmas/

sou atriz, diretora, contrarregra e cortina:

e se eu quero cantar,

canto/

Thaís

 

 

 

 

mil vizinhos, hoje

12032053_10153721542124312_450620223993556626_n

Casa 68 foto Clarissa Teixeira Santos

Nosso projeto chega a marca dos mil simpatizantes. Os primeiros como leitores do blog, outros como frequentadores dos eventos que reuniram amigos no Rio de Janeiro, em Brasília e em São Paulo.

Depois, muitos se juntaram nas rodas de conversa e nos encontros das agendas sustentáveis que compartilham o desejo por ambientes mais humanos.

Meu agradecimento especial aos apoiadores do projeto: Casa das Caldeiras, High Pass, Livraria da Vila. Empresas que formam o elo composto também por bairros, aldeias e cidades.

A perspectiva de uma vizinhança mais atuante se dá nessa abertura dos produtores culturais, executivos, líderes indígenas, educadores, vizinhos de bairro, palhaços, médicos, hortelões, poetas, familiares, terapeutas comunitários, que contribuem diretamente para uma partilha do que é comum a todos: a generosidade.

No planalto central, o coletivo brasiliense Casa 68 é nosso novo pólo. Tivemos uma noite muito especial, na última terça-feira, com a contribuição expressiva para essa rede que se forma com o objetivo de repensar a vocação do espaço público.

Sabemos que não é fácil romper com a dinâmica que nos captura para o excesso de trabalho e, consequentemente, para o recolhimento egoísta. Se liberar dessa lógica que inibe o direito ao tempo livre, transforma o outro numa ameaça e o desconhecido numa chatice, requer fôlego. Exige disposição para vencer o trânsito, derrubar a agenda, chegar no ambiente e dizer: presente!

Mas a pura delícia é compartilhar um tempo sem promessa de futuro, sem solução para nada, liberado para a gente viver o improviso – como se não fosse essa a única condição.

Muito obrigado pelas mil presenças em A vizinhança.

Marcelo Carnevale

#viresuacidade

IMG_0685

Danilo Salustiano, 10, o leitor mais assíduo da Biblioteca Temática Direitos Humanos Maria Firmina dos Reis, Cidade Tiradentes, SP. Foto Marcelo Carnevale

Olhar a cidade de São Paulo como uma vizinhança é libertador. Combina com a redução da velocidade nas marginais, com as ciclovias, com o comércio de rua, com frequentar espaços públicos ou visitar bibliotecas.

A vizinhança, como opção de estar e viver a cidade, é uma experiência que vez por outra coloca em xeque as nossas certezas, expõe a nossa vulnerabilidade e aponta novos desejos. Mas que possibilidades seriam essas? Uma São Paulo das delicadezas, das surpresas e da cooperação desinteressada? Sim.

A baixa velocidade nos devolve o fracasso da cidade poderosa, revela o colapso da fantasia fast que num giro alucinante fez o neoliberalismo passar por cima da gente e dar a marcha à ré, três vezes.

São Paulo no tempo natural das coisas é uma cidade muito mal acabada. Fantasia que não convence, por mais que prometa um pouco de efeito para não prestarmos atenção. A virada está nesse ponto: queremos prestar atenção.

Corremos muito nas últimas décadas para alcançarmos o podium da meritocracia, mas o troféu é jeca: o pastiche do progresso poluído, impessoal e mentiroso diante da seca do Sistema Cantareira e de toda a invisibilidade dos pobres e novos imigrantes.

Continuamos colonialistas, separados pelo mesmo domínio classista, sem nenhum avanço nas relações de convivência. O miseráveis que não são mais miseráveis que continuem à margem da cidade, assim como os bolivianos, os nóias, os africanos e toda a população carente.

A virada nos revela: queremos essa gente na vizinhança

Acolher a diferença na base da amizade traz esse convite: resgatar o direito ao convívio. Faremos encontros com três, cinco, cinquenta pessoas para celebrar a vida em comunidade.

Queremos comemorar esse tempo lento, que nos permite olhar nos olhos dos outros e sorrir quando nos flagramos confiantes, acompanhados de pessoas desconhecidas que compartilham a cidade.

Levará mais tempo para que a roda abrace pessoas que vivem fora das rodas estabelecidas, mas não há mais como retrocedermos.

O que pode parecer banal é carregado de verdades: somos menos medíocres quando toleramos diferenças de todos os tipos, nos sentimos mais seguros quando existem pessoas ocupando as calçadas e, sobretudo, rejuvenescemos quando desejamos a cidade na qual escolhemos viver.

O amor por São Paulo está explícito e ele é tão legítimo como a presença de todos que estão na condição transitória de ocupação da cidade – nós mesmos.

image003