O recomeço

 

10634290_10206994829660577_407180034_n

foto Marcelo Carnevale

A foto do meu novo registro geral – que substituiu o documento antigo e emitido há muito tempo no Rio de Janeiro – é um flagrante da minha inquietação paulistana: o que constitui a nossa identidade? Qual o lugar do sujeito desenraizado? A qual vizinhança pertencemos?

Esse espanto garante um exercício constante de olhar os detalhes da cena urbana, elegendo o que nos é familiar e o que nos ameaça e amedronta.

O medo paulistano da convivência com o que é estranho não mora em mim, não me paralisa. Ao contrário, me possibilita o movimento e algumas descobertas, mesmo que a cidade se agigante e que a gente desapareça nela.

Não se trata de um simples deslocamento pelo espaço, mas de uma postura que me permite andar por aí, entrar num beco, descobrir uma escada de acesso. A ideia é a mesma: encarar a topografia paulistana que sobe e desce na maré de concreto. Andar e conquistar cada topo em busca de alguma visão não consolidada sobre as coisas. O que pulsa?

Pergunta que lateja na minha cabeça e que, sem resposta fácil, me obriga a circular. Amar São Paulo exige outro tipo de disponibilidade para encontrar o amor.

O fluxo e a Luz

Nessa utopia, o desejo me colocou diante da região da Luz. Lá, mora uma verdade sobre o que produzimos coletivamente: a miséria humana.

Atravessar o fluxo da Cracolândia é um caminho sem volta em sentidos muito distintos: da tomada de consciência do que somos capazes de produzir e ignorar como sociedade, da chaga que purga o inumano em nós como ferida aberta no coração histórico da cidade.

Minha identidade paulistana sofreu esse ajuste, que permitiu a meus olhos vasculhar os detalhes do fluxo sob a teia de aranha do nylon suspenso a apenas um metro e meio de altura, coberto por plásticos capazes de abrigar o que jamais tinha visto antes: um viveiro de corpos magnetizados pelo crack.

Centenas de homens e mulheres numa convulsão do que não cabe, do que não tem mérito, do que não conduz e nem é conduzido e que é nosso, também, como cidadãos de São Paulo.

Bicheira ativa numa concentração de indigentes, com suas tramas, subtramas, violências subreptícias, numa frequência de desfiguração e de desenraizamento d’alma. Monitorada por uma aliança do poder público, difusa na poeira de elementos químicos. Ardendo aos nossos olhos do meio-dia.

Ali, cabe a mais dura pergunta já feita por Primo Levi sobre o holocausto: é isso um homem?

Sem resposta, sigo. Não estou sozinho nessa incursão pela região da Luz, existe muita gente disposta nessa vizinhança. A começar pelo meu amigo Paulo Farias no Teatro do Pessoal do Faroeste e os inúmeros profissionais da saúde, numa rotina de trabalho inimaginável (Programa Recomeço e Projeto de braços abertos).

Gente empenhada a esperar pelo primeiro sinal que indique o desejo de mudança – como meu xará o Dr.Marcelo Ribeiro, diretor do Centro de Referência de Álcool,Tabaco e outras Drogas (CRATOD), que generosamente me guiou nesse cenário labiríntico e invisível para a maioria dos paulistanos.

O desejo de ruptura com o consumo do crack demanda um esforço muito brutal do usuário. Não menos que o nosso para rompermos com a inércia e detonarmos a hipocrisia que nos impede de contribuir de fato pelo exercício da cidadania.

Estamos todos interligados sob a mesma teia que corta o céu de São Paulo. O risco que estica a corda na rua Helvétia, na Luz, é o mesmo que tensiona a respiração da família na sala de estar da classe média. Somos os mesmos, mas a solidariedade é um aprendizado constante. O convite ao recomeço é amplo, geral e irrestrito.

Por coincidência, meu RG paulistano ficou pronto no Poupa Tempo da Luz, nesse mesmo dia da visita à Cracolândia. Saí do atendimento com a sensação de que a cidade me acolhe e me oferece as condições e o tempo para ficar e agir. Obrigado São Paulo. Obrigado a vocês pelo apoio ao projeto A vizinhança.

Feliz Natal

 

 

 

 

 

 

 

São Paulo nos olhos

Post VNR 26Nov

Esse post é uma carta aberta ou melhor um anúncio, um chamado: procuram-se homens e mulheres que emprestaram seus rostos aos painéis da estação do metrô Sumaré.

Eles ofereceram os próprios olhos, as bocas, as peles para compor a identidade paulistana de milhões de pessoas que transitam pelo espaço público e cujo destino é estar em São Paulo.

Podem se deslocar para uma consulta médica nas Clínicas, para poupar tempo na Luz, para encontrar amigos na Vila Madalena, para descobrir um novo amor na Consolação, para meditar na São Bento ou ainda procurar um emprego na Sé, no Brás, na Paulista ou na República.

Gente que estuda no Butantã, na Vila Mariana, na Liberdade ou frequenta exposição no MASP, na Pinacoteca e no Centro Cultural Banco do Brasil.

Alguns tiveram avós que nadaram no Tietê, muitos falam espanhol ou chinês em casa. Gente que nunca passou por baixo do Minhocão, não. Por medo de se perder e ser assaltado ou por medo de ser confundido com assaltante. Gente que corre e anda de skate na pista interditada do elevado e quer ver o parque sair do papel.

Os que dançam tal qual pirilampos queimando a pedra, os que bufam quando a faixa da esquerda da escada rolante é obstruída por algum desavisado.

Tem também a turma que ouve tanta música numa órbita particular dos fones de ouvido. Qual será a trilha sonora da cidade?

Engana-se quem pensa que nossos amigos da estação Sumaré viraram paisagem. Nos dão a chance de olharmos para eles diariamente, uma presença que vela generosamente por São Paulo.

Sol, chuva, lentidão ou fluxo livre. Sob a tensão dos que enfrentam a polícia militar para defender suas reivindicações ou com a alegria dos que começam a reinventar a cidade com seus coletivos.

Ciclistas, hortelões ou estudantes, todos podem contar com a rede que se forma a partir dos olhares presentes na estação Sumaré. Talvez aqueles rostos adivinhem nossos sonhos, neutralizem angústias, inspirem empenho e dedicação ao próximo.

Podemos brincar de cada vez olhar fixamente para um deles ou de adivinhar os nomes, ainda de imaginar qual destino seguiram, se estão bem, se acham graça nas mudanças pelas quais a cidade tem passado, se sentem saudades de alguma coisa que ficou para trás.

Vale um selfie diante do painel enquanto o trem não vem, vale acreditar que também somos um deles e que podemos emprestar nosso olhar, nosso coração, nossa pele para essa grande vizinhança.

Brasília e alguns versos queimados

 

Image

Parque das Sucupiras em foto de Zuleika de Souza

A segunda edição de A vizinhança/Brasília com o apoio da Cultura Viagens, no coletivo Casa 68, abriu espaço para um diálogo rico e complexo – como deve ser a vida nas cidades.

Aceitamos a provocação da fotógrafa Zuleika de Souza, no artigo intitulado: Quem acode? publicado na Revista do Correio Braziliense, no último 10 de outubro. Incorporamos aos temas debatidos, a tensão que envolve o Parque das Sucupiras, no Sudoeste.

Para entender a situação, contamos com a fala do artista plástico e professor Fernando Lopes, um defensor da última vegetação nativa que permaneceu na área central da cidade, à beira do Eixo Monumental.

O que descobrimos através da narrativa generosa de Lopes, pautada pela cartografia da região, foi o Sudoeste planejado e o Sudoeste incendiado como duas realidades possíveis para o mesmo território.

Uma tensão que revela como é estratégico uma análise do espaço com fotos, mapas e documentos sobre a preservação do conjunto urbanístico de Brasília.

O relato nos alerta para a importância do exercício da cidadania como oportunidade de refletirmos sobre o que desejamos e o que sonhamos, quando se trata de reinventar o convite ao bem viver.

Brasília revisitada

Olhar o plano piloto como um porta-retrato dos traços modernistas ficou há muito para trás. Hoje, é possível perscrutar no vazio das superquadras, dos parques, das entrequadras, a intenção de uso (que caiu em desuso antes mesmo de ser usado exaustivamente).

Percebemos uma vocação para ocupação do espaço urbano que diante da dinâmica social que se impôs na área, seja pela falta de um transporte público eficiente ou pela insegurança geral, resultou na melancolia do habitar sem o convívio, como uma humanidade sem homens.

Jardins desertos, alamedas arborizadas reduzidas aos inóspitos estacionamentos de seus moradores, decretam um silêncio opressor, como nos declarou um brasiliense nativo e apaixonado pela própria cidade.

No exercício de aproximação com o plano original, o que vemos das janelas generosas de recorte modernista nos sugere uma brecha para novas ideias. Um desejo pouco explorado mas que aflora para quem se atreve a tomar pra si o seu pedaço e ocupá-lo. Está tudo ali para ser compartilhado. Qual o mistério?

Fernando Lopes é um desses amantes, desses leitores persistentes que enxergam na decadência prematura da cidade nova a chance de reinterpretar o texto arquitetônico, a favor de seus habitantes. Como Zuleika de Souza, os dois estão atentos aos oportunistas que perceberam, nesse limbo da paisagem esvaziada, a chance do uso especulativo do espaço.

O que escapa à lembrança 

Naquela mesma noite quente, na 705 Sul, o livrão da vida estava aberto na página das contradições. A que revela o que se pensa como protegido – pelas demarcações de área e qualificações de uso – e ao mesmo tempo se configura como vulnerável à especulação imobiliária.

O fogo, a queimada, nos alerta para o que escapa dessa Brasília domesticada, intempérie, reação da natureza e aparentemente fora de qualquer plano. Será?

Todo ano, as chamas do cerrado impõem um senso de urgência. Mas atravessar a cortina de fumaça para encontrar a saída permite outras composições, novas rimas. Que incluam palavras, como: coletivo, compartilhamento, ciclovia, criatividade, convivência, conveniência, cooperação (se ficamos brincando apenas com as que começam com a letra C).

Mesmo que para a maioria, o alívio esteja arraigado à récita dos prós e os contras de se viver do mesmo jeito. Mesmo que exista um registro original belíssimo, plástico e definitivo, Brasília pode arriscar novas composições.

Como um poema inacabado, se permitir ser rascunhado pelo tempo presente, pelo fogo, pela seca, pela chuva, pelos ipês generosos, pelas interpretações coletivas. Melhor assim.

12200589_10204824419519582_1008409025_n

Fernando Lopes em foto de Zuleika de Souza

 

10250726_1044158265617416_1256144130_n

Voluntários no Parque das Sucupiras. Brasília