A senha paulistana

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Praça da Sé foto: Marcelo Carnevale

São Paulo se revelou, mais uma vez, um exemplo de eficiência pelo serviço do Poupatempo da Sé (máquina administrativa paulista).

O horário agendado permitiu uma visão de todo o corpo de baile dos atendentes no final do expediente, ainda em cena, com os guichês abertos e quase nenhuma demanda de atendimento.

Como um lapso, uma intimidade, a surpresa: o desperdício de tempo no centro da economia dos minutos, regulado por números de chamadas e monitorado pela avaliação instantânea da qualidade dos serviços.

Alguns funcionários reagiam muito bem à vadiagem, outros sustentavam a postura rígida de quem comanda e ordena a massa, no grosso volume de pedidos que registram mudanças de endereço, compra e venda de automóveis, reclamações no atendimento ao consumidor ou, como no meu caso, a renovação da carteira de habilitação.

Diante do vazio em escala, uma inesperada cidade funcional, exemplar e desconcertante na sua prontidão.

Fora das horas

Liberado, alcancei de volta a Praça da Sé no momento da troca de luz no fim da tarde. Fazia um frio tão cortante como a investida do veículo da polícia militar que rosnava em pleno passeio público, entre os moradores de rua, os ambulantes, os imigrantes, os trabalhadores apressados.

O contraste entre a vida disciplinada no aparelho do Estado e a tensão no espaço público me fez perceber o que escapa ao contrato social e à agenda formal das coisas.

Apesar do clima frio e violento, me identifiquei com os sujeitos alheios a qualquer tipo de poupança. O convite era indecente para a dinâmica liberal: perder o foco, vagar, viver aquele instante do tempo livre.

E eu estava com essa disposição, ocupando o passeio público para buscar um acolhimento na multidão, nas ruas esquecidas do centro, entre uma barraca de tapioca e uma banca de jornal movimentada. Estava lá, amando São Paulo sem pedir licença e sem explicar nada a ninguém.

À espreita

Como é generosa e surpreendente as ruelas que oferecem tantas coisas bonitas para quem se dispõe a encarar a decadência sem medo. Tudo muito sujo e desprovido de cuidado, mas com um repertório diversificado e sem neutralidades, a revelar essa vizinhança diminuta em camadas históricas que oscilam entre o abandono total e a resistência.

No lusco-fusco daquele dia frio, o brilho ambar no vidro de uma porta de ferro juntou um passado reluzente a um presente possível e sedutor. A luz quente repercutiu dentro de mim. Estava conectado ao centro com o qual tento me aproximar cada vez mais, sem um objetivo específico, talvez reinventar a cidade a partir dos códigos que não domino. Todo dia um Marco Zero.

 

 

 

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