Brasília e alguns versos queimados

 

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Parque das Sucupiras em foto de Zuleika de Souza

A segunda edição de A vizinhança/Brasília com o apoio da Cultura Viagens, no coletivo Casa 68, abriu espaço para um diálogo rico e complexo – como deve ser a vida nas cidades.

Aceitamos a provocação da fotógrafa Zuleika de Souza, no artigo intitulado: Quem acode? publicado na Revista do Correio Braziliense, no último 10 de outubro. Incorporamos aos temas debatidos, a tensão que envolve o Parque das Sucupiras, no Sudoeste.

Para entender a situação, contamos com a fala do artista plástico e professor Fernando Lopes, um defensor da última vegetação nativa que permaneceu na área central da cidade, à beira do Eixo Monumental.

O que descobrimos através da narrativa generosa de Lopes, pautada pela cartografia da região, foi o Sudoeste planejado e o Sudoeste incendiado como duas realidades possíveis para o mesmo território.

Uma tensão que revela como é estratégico uma análise do espaço com fotos, mapas e documentos sobre a preservação do conjunto urbanístico de Brasília.

O relato nos alerta para a importância do exercício da cidadania como oportunidade de refletirmos sobre o que desejamos e o que sonhamos, quando se trata de reinventar o convite ao bem viver.

Brasília revisitada

Olhar o plano piloto como um porta-retrato dos traços modernistas ficou há muito para trás. Hoje, é possível perscrutar no vazio das superquadras, dos parques, das entrequadras, a intenção de uso (que caiu em desuso antes mesmo de ser usado exaustivamente).

Percebemos uma vocação para ocupação do espaço urbano que diante da dinâmica social que se impôs na área, seja pela falta de um transporte público eficiente ou pela insegurança geral, resultou na melancolia do habitar sem o convívio, como uma humanidade sem homens.

Jardins desertos, alamedas arborizadas reduzidas aos inóspitos estacionamentos de seus moradores, decretam um silêncio opressor, como nos declarou um brasiliense nativo e apaixonado pela própria cidade.

No exercício de aproximação com o plano original, o que vemos das janelas generosas de recorte modernista nos sugere uma brecha para novas ideias. Um desejo pouco explorado mas que aflora para quem se atreve a tomar pra si o seu pedaço e ocupá-lo. Está tudo ali para ser compartilhado. Qual o mistério?

Fernando Lopes é um desses amantes, desses leitores persistentes que enxergam na decadência prematura da cidade nova a chance de reinterpretar o texto arquitetônico, a favor de seus habitantes. Como Zuleika de Souza, os dois estão atentos aos oportunistas que perceberam, nesse limbo da paisagem esvaziada, a chance do uso especulativo do espaço.

O que escapa à lembrança 

Naquela mesma noite quente, na 705 Sul, o livrão da vida estava aberto na página das contradições. A que revela o que se pensa como protegido – pelas demarcações de área e qualificações de uso – e ao mesmo tempo se configura como vulnerável à especulação imobiliária.

O fogo, a queimada, nos alerta para o que escapa dessa Brasília domesticada, intempérie, reação da natureza e aparentemente fora de qualquer plano. Será?

Todo ano, as chamas do cerrado impõem um senso de urgência. Mas atravessar a cortina de fumaça para encontrar a saída permite outras composições, novas rimas. Que incluam palavras, como: coletivo, compartilhamento, ciclovia, criatividade, convivência, conveniência, cooperação (se ficamos brincando apenas com as que começam com a letra C).

Mesmo que para a maioria, o alívio esteja arraigado à récita dos prós e os contras de se viver do mesmo jeito. Mesmo que exista um registro original belíssimo, plástico e definitivo, Brasília pode arriscar novas composições.

Como um poema inacabado, se permitir ser rascunhado pelo tempo presente, pelo fogo, pela seca, pela chuva, pelos ipês generosos, pelas interpretações coletivas. Melhor assim.

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Fernando Lopes em foto de Zuleika de Souza

 

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Voluntários no Parque das Sucupiras. Brasília

 

 

 

 

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