A criação como trunfo

 

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São Jorge no teatro foto Marcelo Carnevale

Na saída do metrô Luz, em plena Cracolândia, confirmo a direção da rua do Triunfo com três guardas que parecem não entender o que eu falo. Resgato um papel do bolso com o mapa da área. Um deles, o mais solícito, assume uma eficiência de aluno em arguição. Sou eu quem dou a cola. Os policiais gaguejam diante do lugar.

Minha opção é seguir, mesmo sabendo que poderia não ser poupado – eu e o guarda somos atores inseguros. A platéia é sinistra, bruta, sem códigos universais.

Tento me encaixar na movimentação por mais que saiba que muito do que não vejo me espreita e muito do que não sei me atrai. Lá estou, em pleno faroeste, num tiroteio de sensações no qual o desejo nem sempre é o mocinho e o que me excita nem sempre é o bandido.

A porta do teatro estava aberta, eu não a vi

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sede do Pessoal do Faroeste foto Marcelo Carnevale

Acionei a campainha, algo patético diante da boca escancarada que me oferecia uma escada íngreme. Cheguei num patamar intermediário para encontrar o diretor teatral Paulo Faria.

Ele me recebeu com uma gentileza discreta, sabe que o espetáculo lá fora acontece o tempo todo e que o público do Pessoal do Faroeste é formado por quem procura uma cena mais criativa na cidade.

Paulo faz da própria dramaturgia um ponto na rua do Triunfo, 301, na famosa e esquecida Boca do Lixo. Há dois anos, o sobrado funciona como teatro para o Pessoal do Faroeste, companhia que existe há 16 anos.

No térreo, o bar junto com a venda de produtos da Daspu insere o teatro na dinâmica do comércio. Essa estratégia minimiza a linha que separa o dentro do fora, possibilita que alguém se abrigue para tomar uma cerveja e olhe o drama que espalha miséria, delírio e abandono entre os enjeitados que circulam no quadrilátero da Boca.

Para quem está cansado desse clichê, o Pessoal do Faroeste faz outro convite: assistir aos espetáculos que encenam textos teatrais pautados pela arqueologia da própria área. São camadas que se sobrepõem em décadas de abandono, reveladas em histórias incríveis das cercanias da Luz.

Quadrilátero do Pecado, Polígono do Amor ou Boca do Lixo

O caderno com o texto da peça “Homem não entra”, produção de 2013, explica que na década de 1950 o governador Lucas Nogueira Garcez e o  prefeito recém-eleito Jânio Quadros decretaram o fim da zona livre do Bom Retiro. Desalojadas, as prostitutas passaram a ocupar os hotéis baratos próximos das estações ferroviárias Júlio Prestes e Luz.

O traçado da área tem início na rua Mauá, a pouco metros da estação da Luz, e prossegue pela rua dos Protestantes, passando pela rua do Triunfo e chegando a avenida Ipiranga. Continua na famosa esquina com a São João e segue por essa avenida até encontrar a Duque de Caxias. O desenho se fecha novamente na rua Mauá.

Atraídos pelos baixos valores, no final da década de 1950 e meados da década de 1960, a maior parte das distribuidoras de filmes tinha escritório na região, antigo pólo de produção de cinema que lá funcionou até 1990.

A mesma cena com novos atores

Paulo conta que chegou na Boca do Lixo por conta dos predinhos que poderiam virar teatro. Para além do baixo valor imobiliário da região, existe a afinidade que une a dramaturgia do diretor com o cinema. Ele admite que os textos de própria autoria são muito cinematográficos como o “Cine Camaleão: Boca do lixo”, montagem de 2012, que homenageou o ator, cineasta e produtor David Cardoso, o Rei da pornochanchada.

O diretor revela que a aproximação com estudiosos e profissionais do cinema ajudou a reavivar a memória do lugar. Em duas décadas, o pólo produziu centenas de dramas, filmes de faroeste, terror, aventuras, policias e filmes com temas históricos, como o clássico “Independência ou Morte”, de 1972, com Tarcísio Meira no papel de D. Pedro I e Glória Menezes como Marquesa de Santos, um lançamento da Cinedistri.

Muitas gerações foram influenciadas pelo que se passava naquele pedaço. Cinema que exibia uma São Paulo criativa e marginal, mais integrada na sua diversidade do que a cidade atual.

Má educação

São nomes que me recordam os souvernirs da infância (recheada de calendários eróticos, pilhas de revistas e filmes pornô): Sônia Braga, Vera Fisher, Matilde Mastrangi, Nicole Puzzi, Nuno Leal Maia, Claudio Marzo e, obviamente, David Cardoso.

A rua do Triunfo me devolve uma São Paulo imaginária, mais cosmopolita e menos engarrafada. Representada pela ação da câmera com planos e roteiros despretensiosos mas que detonaram meu desejo de conhecer a metrópole cinza e interessante. Como disse Paulo Faria, uma cidade mais marginal, uma cidade mais humana. Eu diria sobretudo experimental.

Quem se limita a acreditar que nessa área encontramos apenas miséria, não olha para o lugar. Eu reencontrei alguns cenários marcantes, reconheci o que o vento soprou na lembrança e me dei conta de que a Boca é coisa nossa. A lição eu sei de cór.

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mapa da área http://oglobo.globo.com/fotos/2007/05/17/mapa_sp_cracolandia_pop.jpg

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rua do Triunfo foto Marcelo Carnevale

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Paulo Faria foto Marcelo Carnevale

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4 ideias sobre “A criação como trunfo

  1. Adorei conhecer esse lado da cidade! Eu paulistano, aprendendo a ver através de outro olhar! Muito bom! Grande abraço

  2. A instigante produção do Pessoal do Faroeste resgatou em minha memória a Boca do Lixo, fotocomentada por Ozualdo Candeias para a revista Filme Cultura, nº37, 1981, editada pela Embrafilme. Na foto de abertura a legenda — Retrato 12×18 da chamada rua Triunfo nos dias de hoje, chamada também de bocadolixocinema nos dias de ontem… e o resto é, diria o Hamleto,…o resto é pornochanchada…fosse o príncipe da Dinamarca cineasta paulistano (ou brasileiro).

    um abraço, muito bom resgatar o quadrilátero da BOCA.

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